Em criança, ouvia esta frase sem lhe perceber o peso. Hoje, sei que carrega mais verdade do que imaginava.
Quando era mais nova, ouvia os “adultos” dizerem que “o fogo é o pior ladrão” sempre que havia notícias de um incêndio. Dizia-se com uma seriedade grave, como se fosse uma lição de vida. E eu, miúda, ficava a pensar no porquê daquela comparação. Ladrão porquê? Roubava o quê?
Com o passar da idade – e de vários verões com as mesmas notícias – aprendi a resposta. O fogo rouba tudo. Leva casas, mata animais, arrasa paisagens, destrói memórias, muda vidas. E não pede licença. Chega de repente, sem compaixão e, em poucas horas, transforma o que era verde, vivo e cheio de sentido num vazio castanho, tóxico e silencioso.
Hoje, olho para essas palavras com outra consciência.
Porque, de facto, não há nada que alivie a dor de quem vê a sua terra queimar. Não há nada que compense o que se perde. Não há consolo imediato para quem assiste, impotente, ao desmoronar daquilo que construiu, cuidou, amou.
O pouco consolo pode vir depois: quando tudo passa e se percebe que o essencial sobreviveu – nunca inteiro, mas vivo.
Podemos discutir a origem: o fogo criminoso e o fogo descuidado. Mas, seja qual for, não podemos discutir o resultado: é sempre o mesmo – um rasto de devastação difícil de sarar. É por isso que, ano após ano, por mais alertas e campanhas que existam, continuamos a repetir que “não custa nada ter cuidado” – porque, de facto, não custa. Custa, isso sim, recuperar depois. Custa limpar o que ficou. Custa recomeçar.
Ainda hoje me impressiona como o fogo, este ladrão sem rosto, está sempre à espreita. Sem critério, sem piedade e sempre – sempre – pronto para varrer todos os quilómetros possíveis.
Talvez, um dia, este tipo de “verão” não faça parte da nossa realidade.
Mas, até lá, vale a pena lembrar: o fogo rouba muito mais do que parece. E quando se perde tanto, não basta apagar e seguir. É preciso prevenir, proteger, reerguer e respeitar.


