Este ano, mais do que qualquer presente embrulhado, dou por mim a desejar o que já foi nosso e, sem darmos conta, deixámos perder.
Não peço nada que se embrulhe, nem que brilhe, nem que faça aquele silêncio pesado de quando se abre um presente caro.
O que eu quero, o que eu peço com a força humilde dos dias, é que regressem as pequenas coisas, os gestos simples do dia-a-dia.
Por isso escrevo esta crónica como quem escreve uma carta tímida ao Pai Natal, não pelo gesto infantil, mas pela coragem de acreditar, nem que seja por um instante, que os sonhos se podem realizar.
O que eu mais quero neste Natal são as pequenas coisas.
As pequeninas.
As que não brilham nas montras, mas iluminam a vida.
Queria o sorriso espontâneo do vizinho do terceiro esquerdo, aquele que desapareceu algures entre as reuniões online e a pressa de chegar a lado nenhum.
Queria o perfume do pão quente que atravessava a rua antes de mim, e abria o caminho para manhãs mais brandas.
Queria a flor que insiste em nascer sem aviso, no canto esquecido do passeio.
Queria o riso que nasce sem aviso.
PUBQueria que voltassem as pequenas conversas à porta, aquelas que duravam o tempo suficiente para nos lembrar que não estamos sozinhos.
Queria os passeios sem destino, levantar a cabeça para ver o luar, o abraço que chega antes das palavras, e permanece depois delas.
Não peço nada de grandioso.
Peço o som das chaves a abrir a porta de casa, com a certeza de que há um lugar onde somos esperados.
Peço a chávena de café quente, a arrefecer devagar enquanto conversamos sobre coisas com sentido.
Peço um “estás bem” dito com interesse verdadeiro em ouvir a resposta.
Peço um minuto de pausa antes da pressa.
Peço um ombro amigo, a palavra certa, um ninho, um carinho…
Peço a coragem de olhar alguém nos olhos e ficar ali, nem que sejam três segundos, inteira e verdadeira.
Talvez os adultos tenham deixado de acreditar em pedidos de Natal porque esqueceram o valor destas coisas minúsculas. Perdemo-nos nos grandes planos, nas grandes notícias, nas grandes preocupações e esquecemos que aquilo que sustenta a vida raramente tem tamanho para aparecer no jornal.
Porque as grandes coisas fazem barulho, mas são as pequenas que nos seguram, são elas que nos costuram os dias.
Por isso escrevo.
Para pedir, com a vulnerabilidade de quem sabe que o essencial não se compra, que regressem as coisas pequenas e simples da vida.
Se o Natal ainda é tempo de milagres, então que este seja o maior deles:
que as pequenas coisas encontrem o caminho de volta até nós. Que regressem a casa, uma a uma, devagarinho, até voltarmos a reconhecê-las.






3 comentários
Um belo texto de natal e que tudo seja como desejas
São essas pequenas grandes coisas que fazem toda a diferença.
Manso Preto eu fazia do MD, um semanário nacional.
Qual Francisca… e Dina… e todos os outros Colunistas.
Textos de qualidade.
É tudo.
Abraço aos heróis destas colunas.
Horas desperdiçadas…
Não é, só, lerem… comentadores…