Reclamamos de tudo. Mas quando podemos escolher… faltamos.
Há um talento inato no povo português que merece reconhecimento: sabemos reclamar. E bem. Somos exímios a detetar falhas — no trânsito, no preço da fruta, no atendimento no centro de saúde, na conta da luz, nos impostos, nos programas de televisão e, claro, nos políticos.
Nada escapa ao nosso olhar crítico e à nossa língua afiada. E, sejamos sinceros: até tem o seu charme. O problema? É que, quando chega a hora em que realmente podemos contribuir para a mudança… muitos de nós desaparecem da equação.
Votar não é um superpoder. É um direito e uma responsabilidade. Mas tornou-se, para alguns, um incómodo. “São todos iguais”, “não acredito em nenhum”, “não serve de nada” — e assim se empurra o dever cívico para o mesmo saco onde se guardam os papéis que não se querem ler: o do esquecimento voluntário.
Curiosamente, quem não vota não se abstém de se entregar aos queixumes quando as coisas correm mal. Quando a água aumenta, quando a escola fecha, quando o hospital não tem pessoal. Reclama-se — com razão — mas esquece-se de que houve um momento em que se podia ter feito uma escolha, influenciado um rumo, mudado, ainda que pouco, a direção da estrada.
Não votar é como deixar aquele amigo que gosta de comidas estranhas e pouco saborosas escolher o jantar. Durante a refeição, será inevitável reclamar que aquilo não é bom nem barrado com chocolate. É querer que as coisas mudem, sem fazer parte da mudança.
Claro que o sistema tem falhas. Que alguns políticos, potencialmente, desiludem. E que nem sempre se encontra uma opção que nos represente a 100%. Mas, se esperamos um mundo melhor enquanto ficamos sentados de braços cruzados, então estamos só a praticar um desporto nacional: a indignação passiva.
É verdade que um voto pode parecer pouco. Mas todos os grandes movimentos começaram com alguém a decidir que “um pouco” já era mais do que nada. E, se não votarmos, são outros que escolhem por nós. E depois… com que cara reclamamos?
Portanto, da próxima vez que alguém disser “não me interessa a política”, talvez valha a pena lembrar: a política interessa-se por nós. E, mesmo que viremos a cara… ela continua a decidir por nós.


