Nem tudo precisa de dar lucro, render tempo ou ter um propósito definido.
Vivemos tão mergulhados numa lógica de produtividade que até o tempo livre tem de provar o seu valor. Se não aprendemos nada, se não ganhámos dinheiro, se não avançámos com alguma tarefa pendente, então o momento foi “mal aproveitado”. Há sempre a sensação de que devemos estar a fazer algo — e esse “algo” precisa de ser útil, justificável, com resultados. Mas será mesmo assim?
Há pequenas coisas que fazem parte da nossa vida e que, à primeira vista, não servem para nada. Inutilidades — diriam alguns. Caprichos. Perdas de tempo. E, no entanto, lá estão elas, a marcar o nosso dia com um sorriso discreto ou uma sensação inexplicável de conforto.
Reler um livro pela terceira ou quarta vez. Já sabemos como acaba, conhecemos os diálogos quase de cor… mas é como visitar um velho amigo. Fazer listas que nunca vamos seguir, só pelo prazer de colocar pensamentos em ordem e riscar tarefas que talvez devêssemos cumprir. Ouvir a mesma música repetidamente, durante dias — não porque seja novidade, mas porque nos provoca algo especial.
Guardar bilhetes antigos de concertos que aconteceram há anos. Não têm valor monetário, não servem para decorar, não vão ser usados outra vez — mas estão ali, como pequenas cápsulas de memória. Tal como aquelas canecas que se vão acumulando no armário: uma com um padrão giro, outra que foi prenda, outra que já está meio rachada, mas tem “personalidade”.
Estas pequenas inutilidades não se explicam. Fazem parte de nós e são legítimas. Não geram likes, nem produtividade, nem lucro. E ainda bem. Porque o seu propósito é outro. São espaços de pausa e de identidade. São os detalhes que nos lembram que não somos máquinas programadas para render, mas pessoas com emoções, hábitos e manias.
Talvez estejamos todos a precisar de mais inutilidades — daquelas que não têm outra função senão fazer-nos bem. E, se assim for, então não são assim tão inúteis, pois não?


