O regresso do postal de Boas Festas

Este ano, antes do Natal, tomei uma decisão simples e ao mesmo tempo, inesperada para muitos, enviei postais de Boas Festas aos meus Amigos. Postais de papel, escritos à mão, colocados no correio.

Fi-lo, porque sinto que a informalidade das mensagens, instantâneas, pelo WhatsApp, email ou redes sociais, descaracterizaram quase por completo aquilo que, outrora, se sentia, ao receber um postal nesta época do ano.

Não se trata de nostalgia vazia, nem de resistência cega ao progresso. As tecnologias digitais, trouxeram?nos, inegáveis vantagens, rapidez, economia, proximidade constante. Hoje, com um simples toque no ecrã, enviamos votos de felicidade, a dezenas de pessoas em segundos. Mas talvez, seja precisamente essa facilidade excessiva, que retirou significado ao gesto.

O postal de Boas Festas, implicava tempo e intenção. Escolher a imagem, pensar nas palavras, escrever à mão, ir aos correios. Cada passo dizia ao destinatário: “parei um pouco da minha vida para pensar em ti”. Ao contrário das mensagens padronizadas, que chegam em massa, muitas vezes copiadas e reenviadas, o postal tinha identidade, peso simbólico e permanência.

Havia também a espera. O postal não chegava imediatamente. Criava expectativa. E quando finalmente aparecia na caixa do correio, misturado com contas e publicidade, destacava?se como um pequeno acontecimento. Era aberto com cuidado, colocado sobre um móvel, muitas vezes guardado durante anos. Quantas mensagens de WhatsApp merecem esse destino?

Num mundo cada vez mais acelerado, em que a comunicação é instantânea, mas frequentemente superficial, o postal representa uma pausa. Um convite à atenção e ao cuidado. Não é por acaso, que muitos de nós, ainda guardamos postais antigos, reconhecendo neles não apenas palavras, mas momentos, relações, afetos.

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Manso Preto

Ao enviar estes postais, percebi algo curioso: as reações foram genuínas. Houve surpresa, emoção, até algum espanto. “Já ninguém faz isto”, disseram?me. E talvez esse seja precisamente o problema, ao mesmo tempo, a oportunidade. Recuperar pequenos rituais não significa rejeitar o presente, mas enriquecê-lo.

Num jornal regional, como o NOSSO, esta reflexão ganha um significado particular. As comunidades constroem?se de proximidade, de gestos que criam laços e memória coletiva. O postal de Boas Festas, é um desses gestos simples, que reforçam a ideia de pertença e de cuidado mútuo.

Talvez, não voltemos todos a enviar postais todos os anos. Mas talvez possamos, de vez em quando, escolher um caminho menos rápido e mais humano. Porque, no fim, não é a mensagem que conta apenas, mas sim, o modo como escolhemos dizê-la.

 

Vitor Bandeira

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Inspetor-chefe da Polícia Judiciária (aposentado);

Criminologista / Consultor em Prevenção e Segurança.

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2 comentários

  1. Eu compro postais desenhados com a boca ou com o pé, numa associação das Caldas da Rainha.
    Tem postais miniatura, também, para decoração da árvore de Natal.
    Tem calendário de secretária e de bolso.
    Etc..
    Tenho saudades de quando enviava um pequeno postal de Boas Festas dentro de um pequeno envelope, aberto (sem colar), por vinte centavos, e à minha frente estava um casal mais velho, e rico, a subscrever certicados de aforro, a 10 escudos, cada.
    Ia para casa fazer contas em relação aos meus 20 centavos.
    Quanto custaria um postal de Boas Festas normal num envelope normal?
    Quando recebo um postal e o envelope selado, guardo o selo.
    Fui colecionador.
    Ofereci selos a Missionários.
    Comprei selo de colecção.
    Seria útil comprarem selos na Associação das Caldas da Rainha e enviarem as Boas Festas e os Parabéns, pelo correio.
    Digital a mais… satura.
    Quem discorda?
    Força amigo.

  2. Lapso da minha parte.
    A Associação das Caldas da Rainha não vende selos mas Postais.
    De Natal e de Aniversário.
    São ARTISTAS diminuídos manuais.
    Pibturas espetaculares.

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