O tamanho conta

O título é sugestivo, talvez até provocatório, mas remete para um problema estrutural que continua a condicionar a economia portuguesa: a reduzida dimensão média das suas empresas.

Segundo dados europeus recentes, Portugal mantém uma estrutura empresarial altamente fragmentada, com uma predominância de microempresas muito acima da média da União Europeia (Eurostat, 2025). Esta realidade limita a produtividade, a capacidade de investimento e a competitividade externa. Num contexto global marcado por transições aceleradas e mercados cada vez mais concentrados, a escala deixou de ser um fator diferenciador para se tornar um requisito essencial.

A evidência empírica confirma este diagnóstico. As projeções macroeconómicas mais recentes apontam para um crescimento do PIB em torno de 1,9% em 2025 e 2026, sustentado sobretudo pela procura interna e pela execução do PRR (OCDE, 2025; Comissão Europeia, 2025). Contudo, a produtividade do trabalho permanece significativamente abaixo da média europeia, refletindo uma estrutura empresarial dominada por unidades de pequena escala. As empresas com mais de 250 trabalhadores continuam a apresentar níveis de produtividade duas a três vezes superiores aos das microempresas (Banco de Portugal, 2025; OCDE, 2025).

A intensidade de capital segue a mesma tendência. As empresas de maior dimensão investem de forma mais consistente em automação, digitalização e inovação. Em contraste, a taxa de investimento empresarial mantém?se moderada e a dependência do crédito bancário permanece elevada, num contexto em que o mercado de capitais português continua subdimensionado face aos seus pares europeus (CFP, 2025). Esta estrutura financeira reduz a capacidade de absorver choques e dificulta o financiamento de projetos de longo prazo.

A atração e retenção de talento qualificado também são condicionadas pela reduzida escala empresarial. Apesar dos níveis historicamente elevados de emprego, a escassez de empresas com dimensão suficiente limita oportunidades de progressão e especialização. Segundo o INE, a taxa de desemprego situou?se em 5,7% no 3.º trimestre de 2025 — um dos valores mais baixos da última década — mas este desempenho não elimina as limitações estruturais na criação de emprego qualificado.

A estes desafios soma?se um bloqueio cultural persistente: a resistência à diluição acionista e à profissionalização da gestão. Estudos recentes mostram que uma parte significativa das empresas familiares continua sem planos formais de sucessão e com estruturas de governação pouco adaptadas ao crescimento. Esta aversão à abertura do capital limita a expansão, reduz a capacidade de inovação e compromete a continuidade geracional.

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Manso Preto

Se Portugal pretende elevar o seu potencial de crescimento, precisa de uma estratégia integrada assente em três eixos fundamentais: consolidação, capitalização e profissionalização.

1) Consolidação empresarial: As economias mais avançadas demonstram que processos de consolidação bem estruturados aumentam a produtividade setorial e reforçam a capacidade exportadora. A fragmentação excessiva impede ganhos de escala e limita investimentos estruturantes. A experiência europeia mostra que setores mais concentrados tendem a apresentar maior intensidade tecnológica e maior resiliência.

2) Reforço da capitalização: A atração de investidores institucionais, o desenvolvimento de instrumentos híbridos de financiamento e a dinamização do mercado de capitais são essenciais. A Comissão Europeia alerta que, embora o crescimento português continue a depender da procura interna, é crucial reforçar o investimento privado e a competitividade externa (CE, 2025).

3) Profissionalização da gestão: A adoção de práticas de governação robustas, a separação entre propriedade e gestão e a integração de competências externas são determinantes para assegurar planeamento estratégico, internacionalização e resiliência financeira. Empresas com gestão profissionalizada apresentam, em média, ritmos de crescimento superiores e maior capacidade de adaptação.

O custo da inação é elevado. A transição energética, a digitalização, a automação e a competição global por talento exigem empresas com escala, capital e capacidade de execução. Em 2025, Portugal foi destacado pela The Economist como uma das economias com melhor desempenho entre os países desenvolvidos, graças ao crescimento acima da média europeia e à valorização do mercado acionista. Mas este desempenho conjuntural não resolve o problema estrutural: sem empresas maiores, mais capitalizadas e mais tecnológicas, o país arrisca?se a permanecer preso em setores de baixo valor acrescentado.

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A discussão sobre a dimensão empresarial não é conceptual; é estratégica. O futuro económico de Portugal depende da capacidade de gerar empresas maiores, mais robustas e mais internacionalizadas. Isso exige políticas públicas consistentes, visão estratégica empresarial e uma mudança cultural profunda. A agilidade das pequenas empresas é valiosa, mas não substitui a escala necessária para competir globalmente. O tamanho conta e, em bom rigor, continuará a contar.

 

Engenheiro e Gestor

 

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