Bem sei que o tempo voa embora para mim me pareça que foi ontem, aquilo que me serve de suporte para esta crónica.
Estávamos em 1991 em pleno apogeu da construção civil e no que tocava a granitos, estes eram extraídos nas pedreiras da serra de Góis, em Gondarém, ou de Ponte de Lima e tinham procedimentos de acabamento muito artesanais e até rudimentares, e havia muita falta de oferta.
Como a mão-de-obra era abundante e os materiais de desgaste rápido como os discos de diamante, ideais para o corte da pedra,caríssimo, superavam os vinte contos, cem euros, por unidade, poupavam nos últimos.
Tudo isso contribuía para aumentar a lentidão, desesperante, das encomendas perante o processo de aparelhamento de pedras, como o perpeanho, que eram trabalhadas, apenas, com um pico-grosso e o consequente atraso das encomendas. Se o acabamento fosse em pico fino, aí tudo se complicava e muito.
Quando, em 1988, comecei a ir comprar perpeanho em Ponte de Lima, este, era vendido junto à estrada nacional 201. Era ali que, dezenas de pedreiros, desenvolviam a sua profissão, sob umas chapas de zinco, a que chamavam telheiros, quando não era sob nada. Alguns tinham no alto da serra a sua própria pedreira de pedra amarela ou cinzenta.
Devo dizer que, a primeira vez que subi aquela serra, fiquei admirado com a quantidade de pessoas que ali trabalhavam. Lembrou-me imagens do garimpo, vistas em jornais, ou na televisão. Ou, então, a descrição, por analogia que o fabuloso escritor francês, Émile Zola (1840/1902), descreve magistralmente no romance “Germinal”. Naquele tempo, ainda as mulheres levavam o almoço aos maridos ou aos pais.
Cada pedreiro usava as seguintes ferramentas:
Uma pequena régua tosca de madeira, um esquadro, um martelão, os picos, e um caco de telha ou tijolo para riscar a pedra. Nada mais simples. Pedra colocada no sítio pelos bem treinados braços do pedreiro, com um plano inclinado, desempenada a olho experiente, picada de seguida por mãos calejadas e hábeis. Riscada de seguida, era com o martelão que faziam os leitos e estava pronta.
Venha outra?
O certo é que, com a sua experiência obtida na repetição diária e anual do mesmo trabalho, ao fim de um dia de trabalho faziam muitos metros quadrados de perpeanho.
Mas tudo mudou vertiginosamente.
PUBAgora, é a bujarda que, ligada a um compressor, uniformiza as faces do perpeanho ou as cornijas, cunhais, soleiras e peitoris, degraus, pisos e até esculturas diversas, etc etc . Peças que são ali serradas dos grandes blocos de granito, vindos de cimo da serra e transformadas por maquinaria moderna., que abastecem o país, os mercados europeus, ou, até a América do Norte.
Há uma enorme oferta com todo o tipo de acabamentos e uma variedade de materiais ao gosto do cliente.
Um belo dia, tal como estava combinado, dirigi-me à pedreira do sr. Ramiro, homem de uma honestidade à prova de bala.
É verdade que poucos homens estavam a trabalhar, mas isso não me inquietou, até porque ele tinha outro telheiro.
“Então sr. Ramiro, a minha encomenda está feita?”
Ele, com aquela aparente calma, tão característica, respondeu-me assim:
“A sua encomenda está começada. O que já não é nada mal?”
Ora, a dita encomenda, estava com um atraso considerável e eu comecei a desesperar. Ele devia ter lido no meu rosto os sinais da minha inquietação.
“Sabe, é que, o pai e seis filhos, fiados num aldrabão qualquer, quando no fim-de-semana receberam, na segunda-feira, estavam a trabalhar para outro patrão”.
“E agora sr. Ramiro, o que vai ser da minha vida, sem pedra par iniciar a obra?”
“Você tenha calma, porque o trabalho faz-se com os que vão e com os que vem.?”
Quinze dias depois o pai e os seis filhos, regressaram ao telheiro do sr, Ramiro porque o patrão não lhes pagou.
(José Venade não segue ao actual acordo ortográfico em vigor).






