Os primeiros namoros

A minha filha mais velha — que, para quem ainda não segue a cronologia emocional cá de casa, já tem três anos — anunciou ontem, entre uma colher de arroz, que tem namorado. O Francisco.

Disse-o assim. Com aquele tom que mistura autoridade com ranho seco no nariz:

— Papá, o Francisco é meu namorado.

E pronto. Fiquei ali, com o garfo suspenso no ar e o cérebro em modo Windows 95 a tentar abrir o Paint, parado naquele nome: Francisco. Quem é o Francisco?

Não faço ideia. Nunca o vi. Não me pediu nada. Não fez uma apresentação formal ou informal. Nada. Nunca me foi apresentado. Não houve reunião, protocolo, nem sequer uma carta de intenções ao seu futuro sogro. Nada. Zero.

O Francisco chegou à minha vida como um vírus de amor infantil não solicitado.

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A minha filha, que até há três meses comia plasticina como quem saboreia foie gras, agora tem um namorado. E não me pediu autorização. Nem ao pai, nem ao Estado, nem à Assembleia Geral dos Ursinhos de Peluche. Nada. Autonomia total.

Aparentemente, os códigos de conduta romântica entre crianças de três anos não incluem consultar o pai. Nem sequer avisar. Nem um desenho a lápis-de-cera.

É aqui que percebo que, afinal, os três anos são a adolescência dos bebés. E eu, como pai, já não sou o centro do mundo. Sou o satélite, a lua de um planeta onde agora orbita o… Francisco.

E pior: com sorriso. A miúda diz “Francisco” com aquela leveza de quem ainda não percebe o peso emocional que carrega um nome. Com aquele brilho nos olhos de quem acredita que o amor é simples, imediato, e que dura até à hora da sesta.

Eu tentei racionalizar. “Se calhar é só um amiguinho”. Mas não. Quando perguntei quem era, a resposta foi clara, serena, letal:

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— O meu namorado.

Silêncio. Pus logo as mãos mentalmente nas ancas e fui dar uma volta pelo terraço do ciúme. Três anos. E já me troca por outro. Ainda ontem me chamava “papá príncipe” e agora… agora sou só o “também”.

E lá me apanhei a ter ciúmes de um puto, que provavelmente ainda não sabe distinguir o cocó do chocolate, mas que já tem o meu lugar no coração dela.

Temporariamente, espero. Embora eu saiba que isto é o início.

Que um dia ela vai ter mesmo um namorado. Um a sério. Com telemóvel e playlists partilhadas. Um que vai saber tocar guitarra — claro que sim, há sempre um destes.

Um dia ela vai chorar por amor. Vai trancar-se no quarto.

Vai dizer que eu “não percebo nada”. E eu vou ter de sorrir, morder a língua, e aceitar que o tempo anda para a frente mesmo quando o nosso coração quer que pare.

Mas ontem, horas depois de me informar que o Francisco era o eleito, ela olha para mim com os olhos mais doces que alguma vez me olharam — e diz:

— Tu também és meu namorado.

E pronto. Voltei a ser promovido. Não sei se é uma promoção partilhada ou se o Francisco já foi corrido. Não perguntei. Não quis estragar o momento com burocracias afetivas.

Aceitei. Abracei. Senti aquele quentinho que nem o melhor vinho consegue dar.

Porque eu sei. Eu sei que é breve. Eu sei que vai passar. Eu sei que, um dia, nem me vai contar nada. Vai amar em silêncio, sofrer com fones nos ouvidos, e o pai vai ser só aquele gajo que

paga a conta do telemóvel.

Mas por agora, por este breve agora, ainda sou um dos homens mais importantes da vida dela, mesmo que tenha de partilhar esse título com o Francisco. Que, repito, não conheço, mas já me está atravessado como uma espinha de peixe emocional.

E vá, aceito partilhar o título. Por agora. Desde que o Francisco saiba onde é o lugar dele: no recreio, dois passos atrás, e longe dos desenhos dela. Que isto de ser namorado da minha filha implica regras, mesmo que ele ainda não saiba ler.

E a primeira é simples: ela manda. A segunda também: eu supervisiono.

 

PS: Francisco, se me estás a ler: desiste!

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1 comentário

  1. Novos tempos.
    Mas deviam ter uma pitada de sal e açúcar amoroso, qual Romeu e Julieta.

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