Bem sei que já passaram uns valentes dias desde que Lisboa fingiu ser, novamente, um hub para novos entrepreneurs, mas, às vezes, é necessário deixarmos o tempo diluir o nosso cringing, para podermos pensar em algumas palavras passíveis de serem proferidas de uma forma minimamente coherent.
Sempre que há uma nova edição da Web Summit, não consigo ignorar um pensamento muito concreto: o nosso país sonha muito para lá das suas capacidades. Isto já é evidente há muitos anos, claro. Afirmar isto é cliché. Mas na última década temos tido um élan distinto.
Somos pequenos. Mas não apenas na dimensão geográfica. Somos pequenos também ao nível da capacidade de definir os nossos destinos, de reformular o que é necessário para que possamos, finalmente, sair da velha cepa torta.
Mas os nossos responsáveis políticos, sejam eles quais forem, sentem que resolvem parte desse problema ao forçarem-se a ir além da sua dignidade para procurar parecer cool em frente a toda uma multidão de gente moderna e repleta de ideias trendy. Assistimos a uma espécie de realidade paralela, em que figuras como Manuel Castro Almeida ou Gonçalo Matias escolhem transmitir uma imagem de um país avançado e capaz de estimular e protagonizar a construção de um futuro mais próspero e tecnológico. Quem se encontra a assistir a estes discursos no velho Pavilhão Atlântico, e que sobretudo só ouviu falar de Portugal quando procurou o destino desta cimeira tecnológica, pensará: “Sim, senhor, um país com líderes que estão a par dos mais recentes desenvolvimentos tecnológicos! Líderes com verve. Com líderes assim, já percebi que Portugal é um país desenvolvido”. Bem, eu não sei se isto é o que os que por cá passam uns dias pensam, mas não tenho dúvidas de que é este o desejo dos nossos sonhadores de unicórnios. É este o principal objectivo comunicacional de todos os membros do governo — e do executivo camarário, claro — durante as apresentações no Parque das Nações. Prometi a mim mesmo não entrar em análises detalhadas sobre a fervorosa gesticulação do nosso ministro da reforma do Estado, mas não consigo fugir a um ponto concreto do seu espírito “unicorniano”: a ideia de que Portugal pretende atribuir a todos os estudantes portugueses um tutor de inteligência artificial. Ainda bem que Cosgrave e seus acólitos não questionaram Gonçalo Matias sobre o facto de o Ministério da Educação não ter ferramentas que lhe permitam conhecer o número total de alunos sem professores. Para além da birra do irlandês fundador desta cimeira a propósito de preços alegadamente elevados das noites nos alojamentos locais e nos hotéis, Paddy (quase um diminutivo do urso de animação) não pareceu muito incomodado com o facto de os líderes portugueses estarem a mostrar aos seus visitantes uma visão de um país que não existe, de um Portugal que está muito longe de conseguir pôr em prática os desejos mais ambiciosos dos seus governantes. Esta versão moderna da Exposição do Mundo Português pouco ou nada diz à grande maioria dos portugueses.
Sim, somos megalómanos ao sonhar com tutores de inteligência artificial quando não conseguimos garantir a todas as crianças os professores necessários a todo o seu ensino obrigatório. Sim, somos megalómanos ao querer grandes empresas sediadas em território nacional quando os nossos pequenos empresários não conseguem desenvolver-se e expandir-se. Sim, somos megalómanos ao pensar que podemos hospedar com credibilidade feiras tecnológicas internacionais quando temos uma administração pública com equipamentos informáticos desactualizados, ou um sistema judicial que, mesmo adoptando um novo sistema informático para facilitar tramitações processuais, por exemplo, não precisa de 10 dias para dar sinal de sérios problemas e reconhecer que se instalou o caos administrativo.
Somos um país minion com sonhos megalómanos. E o que estas ambições escondem é um grave sentimento de impotência face à incapacidade de resolver os problemas da gestão do país.


