Os políticos e a sua má relação com a História: Ventura e a 1ª República (Parte 2)

Para os republicanos, sobretudo os positivistas, a luta de classes não passava de uma invenção metafísica, como dizia Teófilo de Braga, um dos mais destacados republicanos de 2ª geração. Téofilo chegou a ir mais longe, apelidando Antero de Quental e os seus seguidores de “alucinadores socialistas”.

A República que se estava a construir era essencialmente burguesa, moderada, apoiante da propriedade e do capital. Existia uma aversão generalizada à igreja, ao clero e à sua influência, mas a República era mais liberal-burguesa do que socialista. Um dos seus principais objectivos, se não mesmo aquele que gerava maior apoio, era a laicização completa do Estado português. Para cumprir com esse objectivo, fora promulgado pelo governo provisório — ou seja, antes sequer de ser estabelecida uma ordem constitucional republicana — um decreto-lei que previa a redução da influência da igreja católica na sociedade portuguesa. Um dos seus grandes protagonistas fora Afonso Costa, que, na altura, tutelava a pasta da Justiça e dos Cultos. Líder do Partido Democrático, era profundamente contrário às greves e as revoltas do operariado. O historiador Rui Ramos cita o cognome então atribuído a Costa: o “racha-sindicalistas”, por ter protagonizado uma repressão intensa, fechando locais de sindicância e ordenando a detenção de muitos sindicalistas. Nas palavras do historiador económico Nuno Palma, a Primeira República “fez perseguições políticas, especialmente de anarco-sindicalistas mas não só, deportando pessoas para prisões políticas nas colónias, verdadeiras precursoras do campo do Tarrafal”. Realizaram-se devassas e buscas a casas de sindicalistas e de militantes associados às greves.

Numa altura em que a República estava a tentar construir-se, aquilo que se verificava era uma profunda hostilidade por parte das massas operárias, algo que não fora muito bem recebido pelo governo republicano. O regime de Outubro não conseguia pôr termo ao mal-estar económico dos trabalhadores.

Logo em Dezembro de 1910, Brito Camacho, Ministro do Fomento (Ministério cuja designação no regime anterior era Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria) fez promulgar o direito à greve. Este documento recebera o epíteto de “decreto-burla”, dado que, enquanto por um lado permitia a greve, por outro também previa a necessidade de utilizar a força contra essa mesma greve caso esta fosse considerada prejudicial aos interesses nacionais. Para os operários, este pressuposto era um engodo, uma burla.

Nesta altura, com os acontecimentos a nível europeu, os operários portugueses estavam mais bem organizados, e o clima de crispação manter-se-á ao longo de todo o regime.

Sabemos que a massa operária suportara em grande medida os movimentos republicanos, tendo ficado subsequentemente desapontada com o facto de a queda da ditadura franquista e, dois anos depois, da abolição do regime monárquico, não terem resultado na instituição de um sistema verdadeiramente democrático.

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Manso Preto

É certo que parte da actual esquerda portuguesa abraça a matriz republicana de influência liberal, no entanto, o segmento da esquerda que Ventura parece referir na sua crítica integra uma linha fundamentalmente marxista na sua corrente de pensamento, uma fracção da esquerda que não dispensa a sua ligação umbilical aos movimentos do operariado europeu. A sua vertente sindicalista corresponde em grande medida à capacidade de fazer desta o reflexo do ideal de democracia desejado. Assim, um regime opressivo da identidade operária não se compagina com a visão da esquerda.

“Entre Novembro de 1924 e Fevereiro de 1925, a 1ª República tem o seu único Governo nitidamente de esquerda, o Governo da Esquerda Democrática de José Domingues dos Santos (…) o único a contar com o apoio popular, incluindo a anarco-sindicalista CGT, o Partido Socialista e o jovem Partido Comunista. Contará, pelo contrário, com a oposição ativa da União dos Interesses Económicos, representante do patronato que tudo fará para o derrubar.” Quem o disse foi Álvaro Arranja, historiador e cronista do Jornal Esquerda.net — página online do Bloco de Esquerda. Já Rui Ramos, cita António José Queirós, ao caracterizar José Domingues dos Santos como o “Lenine português”. Ramos não concorda com esta classificação. Considera que José Domingues era “apenas um candidato à liderança do PRP, ao qual, para se distinguir dos seus rivais, propunha dar um toque mais radical”. Inclusivamente, em Portugal, o historiador considera que “não havia as condições sociais e políticas mais propícias para movimentos como foram o comunismo ou o fascismo desta época na Europa”.

Portanto, André Ventura procurou associar figuras como Afonso Costa à actual esquerda, como se de um ícone para esta se tratasse. A verdade é que a realidade política e social da 1ª República não permite tamanhas simplificações. A má relação com a História e a necessidade de uma retórica inflamada e em formato de slogan andam sempre de mão dada. Como tenho vindo a dizer, cabe ao eleitor estar atento.

 

Bibliografia citada:

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Relativamente à citação de Nuno Palma, consultar:

A primeira República era democrática? (2015, July 24). Portugal No Longo Prazo. https://nunopgpalma.wordpress.com/2015/07/24/a-primeira-republica-era-democratica/

Relativamente à citação de Álvaro Arranja, consultar:

Arranja, Á. (2013). Um governo de esquerda na 1a República (B. de Esquerda, Ed.). Esquerda.net.

Relativamente à citação de Rui Ramos sobre o “racha-sindicalistas”, consultar:

Vasconcelos, B., Ramos, R., & Gonc?alo Monteiro, N. (2010). Histo?ria de Portugal (p. 601). A Esfera Dos Livros.

Relativamente à citação de Rui Ramos sobre o “Lenine português”, consultar:

Vasconcelos, B., Ramos, R., & Gonc?alo Monteiro, N. (2010). Histo?ria de Portugal (p. 620). A Esfera Dos Livros.

 

 

 

 

 

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