As notícias vindas de Itália, nas últimas semanas, deveriam provocar mais do que um encolher de ombros. A detenção de nove pessoas, por suspeitas de financiamento do Hamas, através de associações ditas humanitárias, lança uma sombra incómoda sobre um universo onde boas intenções, ativismo político e falta de escrutínio, se cruzam perigosamente.
Segundo as autoridades italianas, Mohamed Hannoun, figura central do ativismo pró-Palestina em Itália e apoiante destacado da Flotilha Sumud, terá estado envolvido num esquema, que canalizou milhões de euros para o Hamas, organização classificada como terrorista pela União Europeia, pelos Estados Unidos e por outros países ocidentais. Hannoun, nega as acusações e invoca a natureza humanitária da sua ação. O processo judicial seguirá o seu curso, como deve acontecer em qualquer Estado de direito.
Mas há questões que ultrapassam o foro judicial.
A primeira é política e moral: até que ponto, a causa palestiniana, tem sido capturada por estruturas e discursos que normalizam, ou relativizam, organizações armadas, responsáveis por ataques contra civis? Defender os direitos do povo palestiniano é legítimo. Fechar os olhos a grupos que instrumentalizam esse sofrimento, para fins militares e ideológicos não é.
A segunda questão, diz respeito ao ativismo internacional. Flotilhas, campanhas de angariação de fundos, manifestações e associações solidárias, desempenham um papel importante na mobilização da opinião pública. Mas quando, esses movimentos se recusam a exercer um escrutínio rigoroso sobre quem os financia, lidera ou instrumentaliza, tornam-se vulneráveis a infiltrações, ou, no mínimo, a uma perigosa ingenuidade política.
É impossível ignorar, o impacto destas revelações, quando sabemos que figuras públicas europeias, incluindo portuguesas, participaram em iniciativas apoiadas por pessoas agora sob investigação. Não se trata de imputar culpas por associação, mas de exigir responsabilidade. Quem ocupa espaço mediático e político tem o dever acrescido de saber com quem caminha.
Por fim, estas notícias, expõem uma fragilidade estrutural: os mecanismos de controlo sobre transferências internacionais, com fins “humanitários”, continuam insuficientes. Num mundo, onde conflitos armados, se financiam também, por vias civis e associativas, a transparência não pode ser opcional, tem de ser uma exigência.
A solidariedade não é cega. Não pode ser. Quando abdica da lucidez, deixa de ser humanitária e passa a ser cúmplice, mesmo que involuntária.
Num tempo de radicalismos, a verdadeira coragem política, talvez esteja em fazer uma pergunta simples, mas incómoda: quem beneficia realmente da nossa solidariedade?
Vitor Bandeira
PUBInspetor-chefe da Polícia Judiciária (aposentado);
Criminologista / Consultor em Prevenção e Segurança.




