É fácil criticar os pobres quando se acredita que nunca se será pobre. Recentemente, estive num jantar com amigos. Jovens, saudáveis, empreendedores, com dinheiro e energia de sobra. A dado momento, a conversa virou-se para os defeitos do Estado. Para eles, o Estado devia ter uma presença quase invisível na economia. Defendem o liberalismo sem rédeas: o mercado que se autorregula funcionando como jogador e árbitro de tudo.
Para esses meus amigos, o Estado é um estorvo: só serve para sustentar quem não trabalha, para proteger os pobres que — acreditam — o são por opção. Isso choca-me, porque estudei a pobreza na faculdade e aprendi como é difícil sair dela quando se nasce pobre. Curioso foi não os ouvir criticar, com a mesma veemência, os grandes grupos económicos privados que todos os dias exploram o Estado e que custam infinitamente mais ao erário público do que qualquer subsídio a uma família carenciada. É sempre mais fácil bater nos mais fracos e indefesos, esquecendo que todos podemos cair, de um dia para o outro, na pobreza.
O que mais me chocou nesse jantar foi a falta de sensibilidade social. Não perceberem que sem coesão social – função primordial do Estado – não haverá paz, nem mesmo para os ricos. Nada tenho contra os ricos, pelo contrário, são eles que muitas vezes geram emprego e fazem a economia avançar. Mas tenho tudo contra aqueles que acumulam riqueza à custa da exploração dos mais frágeis e indefesos. Tal como condeno, sem hesitação, quem recebe o Rendimento Social de Inserção sem o merecer. Justiça social não é proteger abusos, é proteger quem realmente precisa.
Quem mais critica o Estado é, muitas vezes, quem nunca precisou dele, quem nunca entrou numa urgência hospitalar do SNS entre a vida e a morte. Enquanto são jovens e saudáveis, acreditam que nada os poderá derrubar. Mas basta um acidente, uma doença rara, um azar na vida, para essa autossuficiência se desfazer. E quando isso acontece, quando deixamos de ser produtivos ou consumidores — a velhice um dia chegará — não é aos privados que se recorre. É ao Estado. E aí percebe-se quem realmente segura a sociedade: o Estado, essa cola que não pode nunca atirar os desprotegidos borda fora.
Digo isto porque já vi como funciona o mundo sem proteção. Quando, por razões familiares, tive de aprender o que era a esclerose múltipla, conheci várias mulheres jovens para quem a doença era só mais um problema. A forma como os patrões lhes tornaram a vida insuportável, devido ao cansaço extremo que caracteriza a doença, pressionando-as para que se demitissem, passou a ser um problema tão duro como a própria doença. O Estado existe para estar ao lado de quem não tem forças para lutar sozinho. Existe para estas pessoas que, se dependessem apenas dos privados, ficariam entregues ao abandono somente por terem algo que não escolheram: a doença (que também um dia toca a todos).
Também sei por experiência própria como os privados enganam diariamente as pessoas comuns. Fiz uma chamada internacional num domingo, porque era grátis, mas no registo da operadora apareceu como feita na segunda-feira, já paga. Reclamei e devolveram-me o dinheiro (algo que jamais o fariam se de facto a chamada tivesse sido feita na segunda-feira). Mas e todos aqueles que não dão por esses “detalhes”? Quantos milhares de euros acumulam as operadoras com estes esquemas?
Outro exemplo é a cartelização dos preços nos hipermercados e nas gasolineiras, que alinham os preços quase ao cêntimo. Não há verdadeira escolha. Não há concorrência. Há conluio. E nós, consumidores, pagamos sempre mais. Enquanto isso, estes liberais batem nos pobres por pedirem subsídios, quando devíamos todos exigir ao Estado penalizações severas a esses grandes grupos económicos privados que operam sem escrúpulos. O caminho não é anular o Estado, é melhorá-lo para que o rigor, a ética e a justiça sejam um facto.
E depois há situações em que o lucro vale mais do que a vida humana. Uma amiga minha levou o avô com 92 anos a um hospital privado, onde foi operado ao coração. Ele morreu pouco tempo depois da cirurgia. Uma cirurgia que custou milhares de euros. Estou convencido de que no SNS isso não teria acontecido, porque a idade avançada não comportava o risco da operação que ocorreu no período da pandemia. O privado, onde o lucro se sobrepõe à ética, aceitou, transformando a morte (evitável) num negócio.
Eu próprio já senti a mão mafiosa dos privados na saúde até por tostões: fui a uma clínica tirar um dente, pensando que seria gratuito por ter os Serviços Sociais da Caixa Geral de Depósitos. Mais tarde recebi a conta desses serviços, porque esse mesmo dente já tinha sido tirado noutra clínica e cobrado à minha assistência médica do Estado. Os privados, mais uma vez a sugar o Estado que dizem ser um estorvo.
E não nos podemos esquecer dos bancos privados. Quando faliram, quem os salvou não foi o mercado. Foi o Estado. Ou seja, todos nós, contribuintes. Os mesmos que rejeitam a mão reguladora foram os primeiros a estendê-la em desespero. Vinte e um mil milhões. E os subsídiodependentes são, segundo esses liberais, os desgraçados que recebem Rendimento Social de Inserção. É certo que de entre estes também há pobres criminosos, mas fazer pagar o todo pela parte é uma injustiça que levaria mais miséria a quem já vive no meio da miséria.
Vejo o mesmo padrão nos hospitais privados que faturam à ADSE serviços nunca prestados com designações técnicas indecifráveis para o doente. Alguns, com uma só factura, arrecadam mais do que uma família pobre recebe em apoios durante um mês inteiro. Mas desses abusos estes liberais não falaram. É mais cómodo apontar o dedo aos pobres, que apenas lutam para pôr comida na mesa, enquanto se fecham os olhos aos verdadeiros sorvedouros de recursos públicos: muitos dos grandes grupos económicos. E isso não é a economia a funcionar: é roubo de colarinho branco.
PUBSempre defendi a iniciativa privada, a agilidade económica e a importância de quem empreende e cria riqueza. Mas sei também que, sem regras, sem árbitro, viveríamos na selva. E nesse mundo, não ganharia o mais competente, mas o mais implacável. É, por isso mesmo, que devemos todos exigir um Estado melhor: mais eficiente, mais fiscalizador, sobretudo daqueles que ajuda e dos que prevaricam à vista desarmada, para impedir abusos e garantir justiça. Um Estado que, reconheço, tem errado escandalosamente em muitos aspetos, daí solicitar mais exigência por parte de todos, porque o Estado somos todos.
A vida tem formas cruéis de nos lembrar da nossa fragilidade. Hoje estamos cheios de saúde, energia ou dinheiro, amanhã podemos ficar sem nada e precisar desesperadamente de ajuda. E, nesse dia, quando um liberal se vê encostado à parede, não bate à porta do mercado. Bate à porta do Estado!




