Rio Vez, onde Deus se fez

Mais do que uma paisagem, o Vez é um regresso. Um reencontro com o que a vida moderna nos tem tirado: a paz, a presença e a ligação à natureza.

O Rio Vez é um rio lindo, cristalino da nascente à foz. Acabo de fazer uma descida de canoa, de Vilela até Santar, sozinho. Estive sozinho, mas nunca estive só. O Vez não o permitiu. Confortou-me do princípio ao fim.

Cada queda de água, cada pequena lagoa, é um fascínio. Um convite. No rio, esqueço-me de tudo: das contas para pagar, das noites mal dormidas… Aqui, fico com a sensação de que podia viver sem salário. O rio alimenta-me.

A limpidez das águas transporta-me para um mundo de amigos que já partiram — e que, de algum modo, emprestaram ao rio a juventude que foi nossa. Das margens, recordo beijos da adolescência. Beijos que não foram “não”, nem “nim”. Foram beijos a dizer “sim”.

Na foz, quando o Vez se encontra com o Lima, chega-se ao Paraíso. O Vez procura tornar ameno o frio Lima — esse Lima que as exigências dos tempos modernos, com a barragem, lhe roubaram parte da beleza que a minha juventude testemunhou. De qualquer forma, podia ficar aqui para sempre, neste paraíso que é o Paraíso. Morreria feliz aqui.

O rio dá nome a uma vila pela qual tenho especial carinho e boas memórias. Estudei, morei e trabalhei em Arcos de Valdevez. E, quando dizem: “Arcos de Valdevez, onde Portugal se fez”, penso mais alto — e digo para mim: “Rio Vez, onde Deus se fez.”

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Manso Preto

Este reencontro com o rio fez-me pensar no que fomos perdendo. O progresso deu-nos conforto, tecnologia, rapidez. Mas cobrou-nos caro: tirou-nos o instinto, a pausa, o saborear dos sentidos… a ligação com a natureza. Vivemos rodeados de ecrãs, mas afastados da vida real, do mundo vizinho. Produzimos mais do que nunca, temos mais do que nunca. Temos tudo — menos tempo e sensibilidade para apreciar o que nos rodeia.

Talvez por isso o Vez me tenha tocado tanto. Porque não é só paisagem — é pertença. Não é apenas um curso de água — é uma memória líquida, ancestral. Como se nos lembrasse, suavemente, do que éramos antes de tudo isto. Li algures que La Mer, de Debussy, fala tanto do mar como da mère — a mãe. Talvez o rio tenha essa função uterina: devolver-nos ao essencial. Às emoções sem pressa. À presença. À paz. Ao início.

O historiador Yuval Harari escreveu que, apesar do salto civilizacional desde a Pré-História até hoje, os níveis de felicidade humana praticamente não aumentaram. E isso faz-me pensar: será que o progresso nos preenche… ou apenas nos ocupa?

Neste dia, o Vez ensinou-me algo que nenhum manual, curso ou algoritmo me poderia ensinar: que a simplicidade não é retrocesso — é retorno. E que o tempo que escorre devagar, como as águas do Vez, pode ser o mais completo de todos.

A vida não precisa de ser tão complicada.

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A vida precisa simplesmente de ser.

 

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