Se boicotamos a Tesla por razões políticas, então também devíamos boicotar os carros chineses

Desde as eleições americanas, tem-se falado bastante sobre o boicote à Tesla devido às posições políticas de Elon Musk. A proximidade entre Musk e Donald Trump gerou um movimento de rejeição à marca, especialmente em alguns países europeus, onde muitos consumidores decidiram não comprar os carros da Tesla por discordarem da visão política do bilionário e da sua intromissão na política interna de outros países.

Independentemente de se concordar ou não com esta forma de protesto, há aqui, por parte destes consumidores, uma incoerência assinalável. Pois, se estamos a aplicar critérios políticos para evitar uma marca, então o mesmo princípio deveria levar-nos a boicotar os veículos elétricos chineses, nomeadamente os da BYD, a marca mais vendida na Europa, uma vez que a China é governada por um regime autoritário liderado por Xi Jinping.

O regime chinês tem um histórico bem documentado de repressão política, censura, falta de liberdades individuais e violações dos direitos humanos, o que levanta a questão: por que razão um boicote contra a Tesla, por razões políticas, é considerado legítimo, mas o mesmo critério não se aplica aos veículos produzidos sob a influência direta do governo chinês?

A postura histriónica de Elon Musk, que é notícia todos os dias na televisão e nas redes sociais, com declarações tão bizarras com controversas – como a semana de trabalho de 120 horas, ou a expressar opiniões politicas polarizadoras – e a sua associação a Trump, levou muitos consumidores a repensar a compra de um carro da Tesla. Mas, se a questão é boicotar produtos por razões políticas e morais, então ignorar a origem dos carros chineses torna-se um claro caso de incongruência generalizada.

O facto de Elon Musk ser globalmente conhecido e altamente mediático, faz com que as suas declarações e escolhas políticas sejam mais evidentes e facilmente associáveis à sua empresa automóvel. Ao contrário, Xi Jinping, apesar do seu imenso poder, é bem mais discreto e o seu nome não está diretamente ligado às marcas comerciais, o que leva a que os consumidores europeus ignorem as implicações que resultam da compra de um carro da BYD ou de outra marca chinesa.

Por outro lado, os carros chineses, como os da BYD, oferecem preços muito mais competitivos do que os modelos da Tesla. O BYD Atto 2, por exemplo, custa cerca de 29.990 euros, enquanto o Tesla Model 3 não sai por menos de 39.990 euros. Muitos consumidores podem até sentir um certo desconforto moral ao comprar um produto chinês, mas, no final, o fator decisivo continua a ser o preço. E, na verdade, na hora de comprar, olha-se para o preço e ninguém se questiona se o produto em causa foi produzido respeitando os direitos humanos e as normas de proteção do ambiente.

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Manso Preto

Num mundo global e interdependente, se todos, no momento de comprar, parássemos para pensar em tudo o que envolve a produção do produto a consumir, certamente ficaríamos tão chocados que bloquearíamos. Muitos dos produtos que chegam às nossas mãos foram fabricados com mão de obra infantil ou  em condições de trabalho exploratórias. Há também inúmeros produtos europeus que utilizam componentes fabricados nessas circunstâncias, muitos dos quais vêm da China. Na realidade atual, é praticamente impossível evitar esses produtos. De qualquer forma, um carro não é uma peça de roupa ou um simples gadget, tem um valor considerável e, como tal, se se atribui um critério político à decisão da compra ou não-compra, então só faz sentido boicotar Elon Musk (que estamos agora a conhecer melhor) boicotando Xi Jinping (que já conhecemos bem há muito e por más razões).

Se queremos levar a sério a questão dos boicotes políticos, temos de ser consistentes. Caso contrário, não passará de um gesto seletivo, uma moda, que serve mais para satisfazer uma indignação momentânea do que para provocar uma mudança com impacto real!

 

 

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