Naquela manhã de outono pelas nove horas, toca de forma estridente, um telefone grande, preto e pesado, era um telefonema do hospital de Lisboa.
O Sr Regedor vai a correr, atende o telefonema, toma nota do nome, idade e nome da família, terminando desta maneira curiosa a conversa:
– ” Meu caro Manel, se o meu amigo sofre, mas fala, respira e come é sinal que ainda vive, que Deus o proteja. Este recado será entregue de imediato, pelo Custódio…”
Imagine ouvir a frase supra citada, do outro lado da linha do telefone.
Nas décadas de 1914 em diante, o telefone ainda era um luxo, nas várias freguesias a nível nacional.
Ouso dizer o telefone, o rádio, o carro e nem pensar na televisao.
O único meio de comunicação fiável, era o jornal regional. Havia também um do Porto e outro de Lisboa, mas estes dois, só apareciam ao domingo. Um na casa do povo, outro no café da terra (tasca do tio Bernardino )e às vezes um na sacristia.
Ter um telefone fixo em casa, era de facto um luxo maior. De gente rica.
Ouvi certa vez, numa tertúlia à volta da lareira em criança, uma história curiosa, que vou tentar recontar.
Na época da I guerra mundial, os nossos soldados portugueses, participaram activamente, lutaram com bravura, muitos morreram e outros ficaram com marcas definitivas no corpo, para além das terríveis e agressivas amputações.
Quando o soldado, oficial, médico ou enfermeiro, conseguia falar ao telefone, poderia ser um bom sinal para a família. Caso contrário, era a incerteza re sempre, a angústia e o desespero de uma espera sem fim.
PUBNormalmente estes Homens lutavam na Flandres, dentro das trincheiras e em condições pouco dignas, de assistência e armamento. E também em África, defendendo as colónias das tentativas inglesas e Alemãs.
Mas lutavam até ao fim!
Quando internados nos hospitais para recuperação, conseguiam ligação dos Hospitais para a família, usando o tal telefone da pessoa importante.
Nesta freguesia do Alto Minho desde a residência do Sr.Cura, à residência do Sr Regedor, ainda havia o telefone do Senhor Conde, pessoa que facilitava estas comunicações. Cedia locais para treino, de marcha e total recuperação dos soldados feridos. Além disso o porco na salgadeira, alimentava os doentes e a família, enquanto eles cuidavam dos seus e não trabalhavam as terras.
Muitas vezes chegavam notícias dolorosas, outras vezes, pequenos sinais de vida. Para a família em causa, a esperança era sempre, a última a morrer.
Em Portugal as primeiras tentativas, experiências de telefone iniciaram-se em 24 de Novembro de 1877, ligando Carcavelos à Central do Cabo em Lisboa.
A primeira rede telefónica pública foi inaugurada em Lisboa a 26 de Abril de 1882, pela Edison Gower Bell Telephone Company of Europe Ltd.
Parece que foi ontem, que os nossos mais velhos assistiram a todas estas transmissões.
Fernando Gardelho Medeiros criou, em 1914, a Rádio Hertz, em Lisboa. Apesar de rudimentares, foram as primeiras experiências de Rádio em Portugal. As emissões regulares surgem em Lisboa a 25 de outubro de 1925.
“A estação chama-se CTI AA e é propriedade de Nunes dos Santos. Inicialmente neutral, formalmente beligerante a partir de 1916, Portugal participou na I Grande Guerra, tendo mobilizado mais de cem mil homens. Entre estes, cerca de oito mil perderam a vida nas trincheiras da Flandres, ou nos campos de batalha de África.”
A participação portuguesa na I Guerra Mundial, foi importante, digna de um destaque, que poucos reconhecem, participou ao lado da Inglaterra e dos restantes Aliados.
Portugal procurou manter a posse das colónias, vincar o reconhecimento do regime republicano, impedindo a perda da identidade nacional.
Em primeiro lugar enviou tropas para África, depois para a Flandres, então foi pragmático e corajoso.
Assegurou desta forma, um lugar à mesa das negociações no chamado pós-guerra.
Uma das maiores conquistas!
Obviamente os custos humanos e materiais, foram exorbitantes.
Principalmente oito mil vidas perdidas, foram muitos os soldados e oficiais corajosos, dessa época que ninguém recorda.
Com todas estas perdas humanas irreparáveis. Portugal sofreu muito.
Mas o povo aguentou, passou fome, trabalhou muito e não viu o seu esforço completamente recompensado.
A fraca economia, a confiança depositada no recente (1910) regime republicano, tornou-se tragicamente débil e criou grave desconfiança.
Após o assassinato do herdeiro do trono Austro-Húngaro, em junho de 1914, as declarações de guerra sucederam-se.
Áustria declarou guerra à Sérvia, aliada do Império Russo; seguir-se-ia a entrada no conflito da Triple Entente (os Aliados). Depois ao lado da Áustria ficou a Alemanha (as Potências Centrais).
A Europa foi muito afetada, abalada nas suas raízes, describilizada pela guerra. A actualidade até parece um “déjà vu”.
Mesmo os países ditos neutrais, viram o seu comércio e finanças prejudicados.
Portugal, teve enormes subidas de preços, teve o povo a levantar o seu dinheiro dos bancos à pressa. Foi um susto. Outro “déjà vu”.
Muitas decisões políticas de outros países, afectaram negativamente Portugal.
E o nosso país acabou por optar pela “neutralidade condicional “ .
Desta forma defendeu as posições portuguesas em África, mantendo a aliança com a Inglaterra, através das conversações.
Esta foi a via escolhida, pelo governo.
Portugal ainda não esqueceu, as causas e os efeitos primários e eventualmente consequências para toda a vida, desta guerra.
Ainda recorda as incursões a Angola e Moçambique, feitas pela Alemanha e Inglaterra. Estes países até já tinham distribuídos, por cada um, os países futuramente conquistados.
O medo, o pavor que Portugal tinha de perder novamente a independência, se a Inglaterra se juntasse à nossa vizinha Espanha.
Até França pediu a participação da infantaria e artilharia portuguesas, e o “Foreign Office inglês convidou Portugal a fazer parte dos Aliados em outubro de 1914, o que o Congresso Português viria a aprovar em novembro.”
Em 1915, a Inglaterra exigou que Portugal apreendesse os navios mercantes alemães nos seus portos, incluindo os das colónias e ilhas, o que aconteceu em fevereiro, em Lisboa, sendo cerca de 70 embarcações apreendidas. O nosso grande poder está no nosso mar.
Obviamente a Alemanha declarou guerra a Portugal a 9 de março de 1916.
“Norton de Matos e Tamagnini, organizaram a Divisão de Instrução em Tancos, da qual resultou o Corpo Expedicionário Português (CEP), que iria lutar pelo bloco aliado.”
Os pobres soldados partiram, mal preparados no que respeita ao treino, equipamento e armamento, tudo se revelou insuficiente para fazer face à difícil realidade da guerra.
Em janeiro de 1917 foi o primeiro contingente para a Flandres.
(Curiosamente a 13 de Maio foi a primeira aparição da Nossa Senhora do Rosário em Portugal)
Inúmeros portugueses foram mortos pelos gases tóxicos, combate corpo a corpo e sobretudo pelas péssimas condições, em que viveram durante meses, nas trincheiras sem serem substituídos
O agravamento dessas condições levaria a um motim no campo de batalha em 1918, mês em que as tropas portuguesas, que se preparavam para ser finalmente substituídas, sofreram terríveis bombardeamentos por parte da artilharia alemã. Os sobreviventes seriam remetidos para a retaguarda dos Aliados, integraram as forças inglesas ou foram limitados a escavar trincheiras.
O elevado número de mortes tornara a guerra cada vez mais impopular em Portugal, onde se agravavam dificuldades – a falta de alimentos, a inflação, o desemprego e no final da guerra uma dívida pública de 25 milhões de libras.
A tudo isto sobreveio a gripe pneumónica de 1918, (em 2019 foi a Covid) que causaram dezenas de milhares de mortos. Na época tempos de greve exagerados, roubos, assaltos, agitação das populações urbanas, dando força aos opositores do Governo do Partido Democrático e da guerra: a Igreja, os monárquicos, os socialistas, parte do exército, os outros partidos. Tudo isto aconteceu em 1914,15,16,17 e 18
O Governo tentou reagir e actuar com perseguições e prisões, diminuindo ainda mais as suas bases de apoio. As colónias e a autonomia do nosso país, foram firmadas, mas a Primeira República não resistiria por muito mais tempo a este desgaste.
Portanto os factores, as causas de conflitos exteriores, mantêm-se em bom rigor.
A luta armada pelo poder, a destruição de alguém ou algo importante, que faça cair este tremendo baralho de cartas e as conversas paralelas, interesses pessoais e nacionais de todos.
Apostar nas conversações, sem dúvida. Mas sem cedências estúpidas de última hora.( caso TGV, TAP etc. )
O que é mais importante para Portugal é manter a SUA RAZÃO.
O nosso país é estrategicamente importante, tem uma geolocalização de excelência, pessoas que pensam.
Felizmente à época não tínhamos televisão, ou melhor uma televisão que diga a verdade, sempre a verdade e só a verdade.
A verdade nua e crua, por exemplo como penso que se faz na televisão do estado, nos vários serviços de informação.
Pede-se mais Informação histórica, documentários sobre opções políticas, sociais, opções e métodos de ensino, reformas educacionais de outros países, que sejam mesmo reconhecidas. Temos belíssimos profissionais nesta televisão.
E políticos demasiado habituados a lidarem com jornalistas e fotógrafos pagos em part-time.
Façam entrevistas sérias, de acordo com a percentagem de votação nacional, que esses partidos tiveram.
Qual é a dúvida, não entendo!
Se não têm votantes, estão a falar para quem? Nós povo precisamos é de saber de facto, o que é que se passa em Portugal no momento actual.
Relativamente às guerras às coincidências, à diferença de quase cem anos de uma primeira guerra mundial, cujos motivos parecem tão próximos destes problemas do século XXI.
É lamentável!
Serão coincidências cíclicas?
Curiosidade:
A televisão em Portugal foi criada em Dezembro de 1955, construída em 1956 e nasce em Março de 1957, sendo um grande fenómeno nacional, como se pode imaginar. No início das transmissões as pessoas dirigiam-se aos locais públicos, para poderem admirar as emissões da “caixinha mágica” pois na altura, pouquíssimas pessoas teriam televisão em casa.


