Numa pequena aldeia do concelho de Castro Daire, ergue-se uma igreja que já presenciou séculos de história. As paredes de granito guardam ecos de missas em latim, promessas feitas em voz baixa, lágrimas discretas por colheitas perdidas e agradecimentos por filhos regressados da guerra. É uma igreja fria e antiga, onde o tempo parece respeitar mais as pedras do que as ideias.
No último domingo, porém, a homilia não veio do Evangelho segundo São Mateus, nem de São Lucas, nem sequer de São Paulo. Veio, aparentemente, de um manual de ciência política simplificada: “Quem é socialista não é bom católico. E quem é bom católico não pode ser socialista.”
Assim, sem parábolas, sem metáforas, sem figueiras nem pescadores, foi direto ao assunto, como quem anuncia o resultado do totoloto espiritual. O socialismo, explicou o santo padre, está perigosamente próximo do comunismo, e o comunismo, como todos sabemos desde Fátima até ao Facebook, caminha não ao lado, mas à frente do demónio. Uma espécie de GPS infernal: Marx à frente, logo atrás Lúcifer.
Os paroquianos, na sua maioria idosos, gente de vida dura, escolaridade curta e fé profunda, escutaram em silêncio respeitoso. Não porque estivessem convencidos, mas porque na igreja não se discute: ajoelha-se. Ali, a palavra de um padre ainda tem peso o de um dogma, mesmo quando troca teologia por opinião partidária.
O problema não está num padre ter opiniões políticas. Todos as têm, até os santos. O problema está no abuso do poder simbólico: usar o púlpito, espaço de autoridade moral, para condicionar consciências frágeis, confundindo fé com boletim de voto. Isto não é evangelização, é catequese eleitoral.
No final, como a cereja no topo do bolo, veio a declaração de redenção:
“Eu não quero influenciar ninguém, mas quem votar no socialismo prova que não é bom cristão.”
É como dizer: “Não te quero empurrar…, mas já te dei um pontapé.”
Fica a pergunta inevitável: que Jesus foi apresentado naquela aldeia?
Porque o Jesus dos Evangelhos nasceu pobre, viveu pobre, andou com os pobres, defendeu prostitutas, doentes, estrangeiros, perdoou ladrões e teve como principal problema; os ricos, os poderosos e os religiosos moralistas.
Jesus nunca falou contra a partilha. Pelo contrário: multiplicou o pão, expulsou vendilhões do templo, disse que é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus.
PUBMas ao longo da história, curiosamente, a Igreja raramente ficou do lado desse Jesus. Preferiu outros companheiros: os reis, os nobres, a burguesia, os ditadores, os banqueiros, os senhores da guerra. Sempre esteve mais confortável ao pé do trono do que ao lado da cruz.
A Igreja abençoou impérios, silenciou massacres, legitimou desigualdades e só muito tarde, e sempre com cuidado, se lembrou dos pobres.
Naquele domingo, não se falou de amor ao próximo. Falou-se de medo.
Não se falou de justiça social. Falou-se de inferno ideológico.
Não se falou de consciência. Falou-se de obediência.
E assim, o sermão deixou de ser espiritual para se tornar um editorial político com água benta.
No fim da missa, os fiéis saíram em silêncio. Alguns pensativos. Outros confusos. Outros culpados sem saber bem porquê. Afinal, entre Deus e o voto, alguém lhes tinha dito que só um dos dois era compatível.
E, talvez o mais triste seja isto: numa aldeia chamada Moura Morta, o que esteve mais morto naquele dia não foi a moura, foi o espírito crítico



4 comentários
É antiga a mania que muito padres têm de se acharem donos de um rebanho:da sua fé ou da sua decisão política.
São mentes pequeninas,as deles,formatadas e são raros aqueles que, ousam pensar mais além que os cânones recomendam.
É lamentável que assim seja.
Geralmente não perco os textos da Dina Almeida. Gosto da sua frontalidade, da sua oportunidade para “dizer”…, do seu bem escrever. No texto de hoje – Sermão segundo São André (ou Santo André?) – mais uma vez apresenta “frontalidade e oportunidade”. Dou-lhe razão no que escreve: A Igreja tem pecados desde o seu início e jamais os conseguirá não ter. Mas, afinal, quem é a Igreja? Ela, é sobrenatural, porque tem como cabeça Cristo e é natural, porque tem nela os homens. Ora os homens erram e a Dina aponta os seus erros. Mas a Dina é ramo da parte natural da Igreja! É Igreja! Ou está fora d’Ela? Na verdade, este texto parece-me bastante injusto, talvez duríssimo contra a Igreja. Em Portugal, a Igreja, quanto à partilha, se Ela fizesse uma greve de 90 dias quanto ao que dá e faz diariamente, o país entrava em colapso, creio bem. Sim, Jesus falou em partilha: basta consultar Lucas, 12-21 e Timóteo, 6,17.
Cristo foi o primeiro comunista?
Comum.
Amanhã faz 95 anos o semanário “Avante”.
Enviei parabéns e elogio pelo jornal que fazem.
Recebi uma resposta que podia recear ser diferente. Muito correta e gratificante.
Sou leitor do jornal desde que o conheci há décadas. Um bom jornal.
O PCP é um partido tradicional.
Tal como o PS e mais recentemente o PPD e o CDS.
O socialismo, em qualquer versão, foi condenado por vários Papas, nomeadamente Pio XI, na Encíclica Quadragésimo Anno (1931)! Porque, segundo esses Papas, a ideologia socialista é inimiga de Deus e da Sua Igreja. Lamento o silêncio dos padres que não informam nem ensinam o povo…