Em períodos eleitorais, as sondagens e os chamados tracking polls, ocupam um lugar central no espaço mediático. Apresentados como instrumentos técnicos de medição da opinião pública, são frequentemente tratados como se fossem um retrato fiel e neutro da vontade popular. No entanto, a sua divulgação contínua, levanta uma questão essencial para a saúde da democracia: até que ponto informar passa também a influenciar?
As sondagens têm, em teoria, uma função legítima. Permitem conhecer tendências, identificar preocupações dos cidadãos e enriquecer o debate público. Num regime democrático, a informação, é um pilar fundamental. O problema, surge quando a lógica da medição, se transforma numa lógica de corrida, em que a política é reduzida a quem sobe e quem desce, como se se tratasse de um campeonato desportivo.
Os tracking polls, pela sua própria natureza, medições frequentes, por vezes diárias, amplificam este efeito. Pequenas variações, muitas vezes dentro da margem de erro, são apresentadas como mudanças significativas da vontade do eleitorado. O resultado, é uma perceção de instabilidade permanente, que nem sempre corresponde à realidade e que pode condicionar o comportamento dos eleitores.
Está bem documentado, que as sondagens não são apenas descritivas, podem ser performativas. O chamado “efeito de arrastamento” (bandwagon effect), leva alguns eleitores a apoiar quem parece estar a ganhar, enquanto outros, podem sentir-se desmotivados, se acreditarem que o seu voto é irrelevante. Em eleições disputadas, esta influência pode ser decisiva.
Acresce, que nem todas as sondagens têm a mesma qualidade metodológica, nem são sempre comunicadas com o rigor necessário. Margens de erro, universo da amostra, taxa de indecisos ou método de recolha são frequentemente relegados para segundo plano, quando não ignorados. Num contexto de consumo rápido de informação, títulos simplificados substituem a análise crítica.
É aqui, que entra o dever de informação. Os órgãos de comunicação social, têm a responsabilidade não apenas de divulgar dados, mas de os contextualizar. Informar não é amplificar números de forma acrítica, é explicar limites, incertezas e riscos de interpretação. Do mesmo modo, as empresas de sondagens, devem assumir um compromisso ético claro com a transparência e a qualidade científica.
No interior do pais, esta reflexão é particularmente relevante. As comunidades locais conhecem bem o peso da proximidade, das relações pessoais e da confiança. A reprodução acrítica de tendências nacionais, pode obscurecer dinâmicas locais e afastar os cidadãos do debate sobre problemas concretos que afetam o seu quotidiano.
Não se trata de defender o silêncio ou a censura das sondagens. Trata-se, isso sim, de defender um uso responsável da informação. A democracia, não se fortalece com a ilusão de previsões permanentes, mas com cidadãos informados, críticos e livres para decidir, sem pressões artificiais.
Em tempo de eleições, medir é útil. Mas informar é um dever. E esse dever exige rigor, prudência e consciência de que, na política, quem mede, também pode estar a moldar a realidade que pretende apenas observar.
Inspetor. Chefe da PJ (Aposentado)
PUB





