Sr. Ministro Fernando Alexandre, SEJA CLARO!

No passado dia 29, Fernando Alexandre, o Ministro da Educação, Ciência e Inovação, discursou perante uma audiência de jovens do PSD.

Foi possível lobrigar, de forma não exactamente clara, o pensamento do Ministro relativamente ao papel que atribui à Ciência. Podemos ser mais ou menos generosos nas nossas interpretações. Porém, há uma conclusão evidente sobre as declarações do sr. Ministro: os cientistas têm de ser clarividentes. Essa clarividência omnisciente resultará assim de uma capacidade preditiva, na habilidade de um cientista contemplar o seu objecto de estudo e conseguir, de antemão, perceber se a sua pesquisa poderá, ou não, ser “útil” (seja lá o que isso for), e de compreender se a sua linha de investigação poderá ter consequências cognoscíveis.

A perspectiva utilitarista da ciência permeia alguns dos departamentos académicos deste país.

É certo que Portugal não tem os recursos financeiros da Suécia. Enquanto sociedade, não podemos sustentar um financiamento científico da mesma dimensão, não temos o PIB da Alemanha, do Reino Unido ou da França, mas temos de ser capazes de reconhecer que fazer um ultimato aos cientistas para forçarem uma consequência “útil” da sua investigação é, em si, uma postura intelectualmente pueril e contra-producente. O objectivo da investigação é precisamente esse, o de procurar descortinar os mistérios do respectivo objecto de estudo.

Não podemos obnubilar que a ciência também se desenvolveu muito graças à aristocracia. O mecenato e o patronato foram historicamente essenciais para o financiamento de muitas investigações e de projectos expedicionários, como podemos vislumbrar, a título de exemplo, com Leonardo Da Vinci, financiado por Ludovico Sforza, duque de Milão, e o astrónomo Tycho Brahe, cujas explorações do céu estrelado obtiveram o interesse do Rei Frederico II da Dinamarca. Só mais ou menos a partir do século XVII, com o Iluminismo, é que podemos observar um aumento cada vez mais considerável de sociedades científicas e artísticas financiadas por programas governamentais. Não foi só uma revolução científica, operou-se também uma revolução cultural.

Uma revolução que afirmava a ciência enquanto força motriz de uma sociedade culturalmente avançada. Uma sociedade capaz de transcender os seus interesses imediatos e de colocar no busílis da sua existência o prazer de descobrir as coisas — como diria Feynman.

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Manso Preto

Temos de ser capazes de olhar para a ciência como um fim nobre da nossa sociedade, não como uma espécie de mosca volante que nos assombra a visão e nos impede de observar atentamente o horizonte.

Não pode ser imposta a ideia de uma moratória na ciência. Neste ímpeto frugal (no sentido frutícola do termo) de a todo o custo atingirmos os patamares mais elevados de produção tecnológica, não podemos permitir a abdicação do reconhecimento do nosso maior triunfo enquanto europeus: a fundação e desenvolvimento da ciência moderna.

William Thomson, o Lord Kelvin, prognosticou, num discurso proferido em 1900, a iminência de um momento histórico em que, na prática, a física teria completado todos os seus objectivos: “A beleza e clareza da teoria dinâmica, que afirma que o calor e a luz são modos de movimento, é atualmente obscurecida por duas nuvens”.

Estes dois fenómenos, que contrariavam a visão ingénua do fim da física, estiveram na génese da física moderna. O primeiro levou à teoria da relatividade de Einstein e o segundo à teoria quântica de Planck, de Bohr e de outros. Porém, em vez de chegar ao fim, a investigação científica na área da física encontrou novos rumos. As “nuvens” de Thomson deram lugar não apenas a novos entendimentos sobre o mundo natural, como, consequentemente, a um conjunto imprevisível de novas tecnologias que, à semelhança do que já tinha acontecido, modificaram por completo a vida humana. As tecnologias que se baseiam directa ou indirectamente em fenómenos quânticos invadiram não só o nosso quotidiano, como invadiram também a agricultura; vê-mo-las nos reactores nucleares e na medicina. Assim, e para deixar bem claro, quando as investigações mais ou menos esotéricas do início do século passado procuravam vislumbrar o mundo matemático e subatómico da física, nenhum dos desenvolvimentos tecnológicos que delas resultaram era previsível.

O sr. Ministro ao equacionar investigação com inovação está a subjugar as restantes vertentes da ciência, como as ciências sociais (psicologia, história, filosofia, ciência política, entre outras), a uma dimensão de completa “inutilidade”. Como saberá, o conhecimento científico não se limita apenas às ciências naturais. Assim, fico com a dúvida, poderemos continuar a contar com o mesmo nível de financiamento nos departamentos de ciências sociais? A historiografia contemporânea manterá apenas a “utilidade” em matérias de estudos de género? O financiamento será mais selectivo quanto às temáticas de estudo? Se sim, quais serão os critérios? Quem os irá definir? Mesmo no contexto das ciências naturais, as diferentes vertentes da biologia fundamental serão ignoradas em detrimento de projectos de biotecnologia? Não cabe nesta coluna a quantidade de questões que continuam a pairar no ar.

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Sr. Ministro Fernando Alexandre, seja claro!

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