Viana do Castelo cobra como capital, cresce como periferia

Há uma pergunta simples que Viana do Castelo continua a evitar responder: por que razão um concelho médio insiste em cobrar impostos como se fosse Lisboa, mas sem oferecer o dinamismo económico de Lisboa, do Porto ou de Braga?

A política fiscal de um município não é um detalhe técnico. É uma escolha política clara, com consequências diretas no bolso das famílias, na competitividade das empresas e na capacidade de atrair investimento e pessoas. E quando comparamos Viana do Castelo com municípios vizinhos e com as grandes cidades portuguesas, a conclusão é desconfortável: Viana cobra mais e devolve menos.

Comecemos pelo essencial. O IMI em Viana do Castelo está fixado em 0,35%, acima do mínimo legal. Parece pouco? Lisboa – a capital do país, com uma pressão urbanística incomparável e necessidades financeiras muito superiores – aplica a taxa mínima de 0,30%. O Porto e Braga seguem a mesma lógica de contenção fiscal. Ou seja, em Viana paga-se mais imposto sobre a casa do que em Lisboa. Isto não é ideologia: é matemática.

O mesmo padrão repete-se no IRS municipal. Lisboa devolve 100% da sua participação no IRS aos contribuintes. Braga abdica de parte significativa dessa receita. O Porto faz o mesmo. E Viana do Castelo? Opta por reter a totalidade da participação, oferecendo apenas mecanismos seletivos e marginais, que não constituem um verdadeiro alívio fiscal generalizado. O resultado é simples: menos rendimento disponível para as famílias vianenses, num concelho onde os salários médios estão longe dos praticados nas grandes áreas metropolitanas.

E quando olhamos para as empresas, o cenário não melhora. Viana cobra derrama, penalizando a atividade económica local, enquanto concelhos vizinhos como Ponte de Lima optaram por não a cobrar, assumindo claramente uma estratégia de atração empresarial. Braga, por sua vez, aplica derrama mas introduz isenções claras para pequenas e médias empresas, protegendo o tecido económico real. Viana mantém o modelo clássico: cobra, arrecada, segue em frente.

O mais curioso – ou talvez o mais preocupante – é que esta carga fiscal mais elevada não se traduz num desempenho económico superior. Pelo contrário. Desde os anos 90, Viana do Castelo tem crescido menos do que seria expectável para o principal concelho do Alto Minho. Não lidera exportações de forma consistente, não se afirma como polo empresarial dominante e continua a perder população jovem. Entretanto, Ponte de Lima cresce de forma sustentada, Braga tornou-se um dos motores económicos do Norte e o Porto consolidou-se como centro de inovação e investimento.

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Temos, portanto, um paradoxo difícil de ignorar:
Viana cobra como os grandes, mas entrega resultados de concelho periférico.

O argumento habitual é conhecido: “é preciso receita para investir”. Mas esta justificação começa a falhar quando observamos o crescimento contínuo da despesa corrente, em particular com funcionamento e estrutura, enquanto o impacto transformador na economia local permanece limitado. Impostos elevados só fazem sentido quando geram retorno coletivo mensurável – mais emprego, mais investimento, mais população. Caso contrário, são apenas um mecanismo de financiamento do próprio sistema.

A comparação com Ponte de Lima é especialmente reveladora. IMI no mínimo legal, devolução total de IRS, ausência de derrama. Não é populismo fiscal: é uma estratégia. O concelho tornou-se mais atrativo para viver, investir e permanecer. Em Viana, prefere-se insistir que “não há alternativa”, mesmo quando os exemplos estão literalmente ao lado.

Não se trata de defender um Estado mínimo local, nem de ignorar responsabilidades sociais. Trata-se de reconhecer que a fiscalidade municipal é uma ferramenta de desenvolvimento, não apenas uma caixa registadora. E hoje, Viana do Castelo usa essa ferramenta de forma defensiva, conservadora e pouco ambiciosa.

A pergunta final é inevitável:
por que motivo uma família ou uma empresa escolherá Viana do Castelo, se pode pagar menos impostos em Ponte de Lima, Braga, Porto ou até Lisboa?

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Enquanto esta questão não for enfrentada com honestidade política, Viana continuará presa a um modelo fiscal pesado, pouco competitivo e cada vez mais desfasado da realidade regional e nacional.

E isso, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço – não em impostos, mas em futuro.

 

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