Há dias, em que nos lembramos de que somos cidadãos. Nesses dias, formam-se filas, distribuem-se boletins, falam-se de direitos, deveres e democracia. Nesses dias, sentimos que a nossa opinião conta. E depois… voltamos para casa. E o mundo continua.
Votar é um gesto poderoso. Conquistado com lutas, sangue e silêncio quebrado. Mas há uma pergunta que raramente fazemos:
– Nos restantes dias entre as eleições, quem somos?
Somos apenas eleitores em espera? Ou somos cidadãos em permanência?
A democracia, tal como a vida, não se esgota num único ato. Não cabe inteira dentro de uma urna. A democracia vive, ou morre, nas pequenas escolhas diárias: quando reclamamos ou nos calamos, quando participamos ou desistimos, quando nos informamos ou preferimos a indiferença confortável.
Votar é um direito.
Mas ter voz é uma responsabilidade.
Ter voz é ir à reunião da escola quando algo não está bem.
É participar na associação do bairro.
É escrever, questionar, propor, exigir.
É não delegar tudo, como se a cidadania fosse um serviço externo.
PUBPorque há uma ilusão perigosa instalada: a de que a política é algo que “eles” fazem, e “nós” apenas sofremos. Mas a política não mora apenas no parlamento, mora nos hospitais sem resposta, nas escolas sobrelotadas, nos transportes atrasados, nos silêncios coletivos.
Quando deixamos de falar, alguém fala por nós.
Quando deixamos de participar, alguém decide por nós.
Quando deixamos de cuidar do espaço comum, ele deixa de ser nosso.
Talvez o maior risco da democracia moderna não seja a falta de voto, mas a falta de presença. A ausência lenta, educada, cansada. Aquela que diz: “não vale a pena”, “é tudo igual”, “não muda nada”. E assim, sem barulho, vamos entregando a nossa voz.
Votar é essencial.
Mas não basta.
A cidadania não é um evento, é um exercício.
Diário. Imperfeito. Incomodativo.
Mas vivo.
Talvez a verdadeira pergunta não seja:
– Em quem vou votar? – mas sim – Que tipo de cidadão vou ser depois de votar?
Porque uma democracia sem cidadãos ativos é apenas uma formalidade com data marcada.





1 comentário
O voto é uma conquista de abril por isso devemos todos exercer este direito porque isto precisa de mudar porque se não não passamos do mesmo belo texto sobre a democracia continua a escrever