É quase prática costumeira adoptar a convicção de que a economia social de mercado (ESM) resultara da boa índole ideológica da esquerda progressista europeia do pós-guerra.
Na verdade, o modelo económico positivado nos tratados comunitários resultara de um esforço teórico e de implementação de ideólogos da democracia cristã alemã do pós-Segunda Guerra. Qualquer filosofia económica assenta em pressupostos previamente conceptualizados — ergue-se sobre os ombros das suas antecessoras, parafraseando Newton. A concepção da ESM não é excepção. Termo cunhado em 1946 por Alfred Müller-Armack, esta proposta surgira da tentativa de conciliar um modelo económico assente na liberdade individual, da produtividade e eficiência com o contributo da doutrina social da igreja ao nível da solidariedade e equidade. Autores como o economista argentino Marcelo Resico asseveraram que a ESM foi desenvolvida numa óptica de aposta liberal perante uma economia planificada e de uma alternativa social a uma economia de mercado livre.
Aqui os leitores podem verificar uma proximidade evidente entre este princípio e a produção intelectual da Escola de Friburgo. Esta escola de pensamento económico surgira na Universidade de Friburgo, na década de 1930. Aqui, pululava a crítica ao laissez-faire e à economia planificada. Esta proposta intermédia entre os sistemas liberal e socialista procurara criar um novo modelo que permitisse mitigar as consequências da desregulação do mercado livre, dando origem a uma corrente do liberalismo que procurava preservar a ordem social dele resultante — o ordo-liberalismo. É então no seio desta disposição ideológica que emerge a proposta da ESM.
O protagonismo da transposição da ESM para o contexto político prático é outorgado a Ludwig Erhard. Proeminente economista, em Setembro de 1949, na recém-formada República Federal da Alemanha (RFA), assumira a pasta dos assuntos económicos do governo tutelado por Konrad Adenauer, histórico líder da CDU — posteriormente, entre 1963 e 1966, sucederia a Adenauer enquanto chanceler da RFA. Deste modo, o pensamento ordo-liberal adquiria agora uma influência cimeira na reconstrução da economia alemã do pós-guerra. Erhard, aplicara assim a sua concepção da ESM na recuperação da economia fragmentada da Alemanha Ocidental.
Em Julho de 1990, a RFA assinara um acordo com a República Democrática Alemã (RDA, ou Alemanha de Leste), conhecido com o Tratado da Unificação, ou o Tratado sobre a União Monetária, Económica e Social. Este documento previa a introdução da economia de mercado e do marco ocidental (moeda da RFA) no território da RDA. Em suma, era a introdução do modelo da ESM no antigo espaço alemão sujeito ao domínio soviético.
A direita tradicional alemã, nas suas dimensões descritas neste breve texto, teve um papel fundamental na construção de um modelo posteriormente assumido no espaço europeu comunitário, desde a sua expressão inicial com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, passando por Maastricht até à sua revisão de Lisboa.





1 comentário
Parabéns pelo excelente artigo.