Somos tipicamente confrontados com a ideia de que tudo o que envolva aproveitamento político tem, forçosamente, uma natureza ominosa; possui, de alguma forma, uma espécie de espírito inato de exploração de terceiros com o objectivo de extrair destes um benefício próprio.
A isto acrescenta-se a constatação de que assistimos, recorrentemente, a disparos retóricos em todos os sentidos sempre que ocorre uma qualquer desgraça ou um qualquer acontecimento que coloque em causa a percepção de que a força política em exercício de funções executivas pode vir a perder o apoio da opinião pública. Sempre que a força de oposição intervém publicamente para condenar ou criticar aquilo que considera ser uma falha de gestão de um executivo, este estende imediatamente — e figurativamente — os braços aos céus e grita: “aproveitamento político!”.
É possível defender a tese de que os povos não têm uma natural disposição para a democracia representativa, de que um regime político orientado para permitir a delegação da sua soberania directa provoque uma certa dificuldade em deixar que se estabeleçam laços de confiança, especialmente quando os delegados não são necessariamente seleccionados pelos respectivos povos.
Porém, procuremos reflectir sobre o que, em larga medida, consideramos ser uma prática de aproveitamento político. Ocorre um desastre que provoca o falecimento de dezenas de pessoas (não, não estou a falar do elevador da Glória). É possível determinar rapidamente que as culpas do desastre podem ser atribuídas a más decisões do respectivo executivo vigente. O que deve a oposição fazer numa situação destas, manter o silêncio em nome do respeito pelas vítimas? Mas e se o poder executivo em funções não reconhecer as suas responsabilidades na matéria, deve a oposição manter-se em silêncio e fingir que não tem ela uma responsabilidade de denunciar? Sejamos francos, se o executivo cometer um erro, toda a oposição tem o dever de o denunciar, seja esta denúncia feita meras horas após o incidente trágico, seja antes ou depois de finalizados os ritos fúnebres. E se estivermos perante sucessivas sessões legislativas em que a força executiva é a mesma, em que a ausência de reformas e a lentidão na dinâmica de crescimento económico estimulam a revolta e o desejo de mudança, deve a oposição responder com letargia, inacção e humildade? Não me parece que concorda com essa ideia.
O objectivo do poder político é governar. Se o executivo governa mal, a oposição tem o dever de capitalizar isso em seu proveito. Só assim podemos esperar que o escrutínio democrático seja eficaz. Só através do aproveitamento político pode a alternância democrática existir. Sem aproveitamento político, não há democracia.





