Trivializar a dor, o sofrimento e a morte

É impressão minha, ou pertencemos à geração que pode de facto, destruir o planeta Terra, tal como o conhecemos?

Estamos adormecidos, somos mais cruéis que as gerações anteriores, ou somos pura e simplesmente mais estúpidos e distraídos?

Se ouvirmos atentamente os vários discursos, intervenções e  comentários dos políticos em geral, ficamos atónitos.

Aquela aparente calma, descontração, despreendimento, na forma de abordar a guerra entre estados independentes, é no mínimo assustadora.

A morte diária das crianças, dos muitos militares anónimos que dão a vida pelo seu país, a morte de famílias inteiras, tudo isto é um autêntico horror!

A fome, a falta de medicamentos, a desnutrição, a violência, as torturas sem sentido, a destruição massiva de um povo ou de uma etnia, os muitos e sucessivos massacres, tudo isto se reduz a uma palavra, morte sem justificação nem perdão.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?
Manso Preto

Os media falam a qualquer hora do dia, destes dramas, destas perdas constantes e do sofrimento atroz de todos.

Todas estas realidades são visíveis ao segundo, em directo e como uma notícia normal.

A repetição destes horrores diários, destas mortes, são uma perfeita tortura psicológica, o pior castigo para o ser humano comum.

Que é obviamente a destruição do seu semelhante.

No entanto atrevo-me a dizer, que estes factos, repetidos até à exaustão, trivializam a verdadeira e destrutiva experiência da morte.

PUB

A morte é o fim da pessoa humana.

É de vida e morte que estamos a falar. De uma realidade incompreensível para muitos, e da sensação de “mais” um para outros.

Em suma trivializar a experiência, a notícia, o impacto, é o ato de reduzir a importância ou o significado de algo. Pode ser uma conquista, uma dor, um sofrimento ou um momento especial, mas vai-se tornando tudo banal ou comum.

Continuamos a falar de destruição e morte. Da realidade mais sangrenta e destruidora do nosso século.

No entanto ficamos impassíveis, vendo e ouvindo estes relatos.

O planeta já não pode aguentar,  durante mais tempo, estes sucessivos ataques.

Os fogos, as catástrofes naturais, a destruição de tantos seres humanos, que sem culpa, estavam à hora errada no sítio errado.

Os responsáveis por estas e outras notícias de dor, destruição e morte, podem estar a participar sem querer, na mais infâme destruição do ser humano.

A destruição através da escolha, mais decisiva, a nuclear. Ao vivo e a cores, a qualquer hora do dia ou da noite.

As crianças são perseguidas nos seus sonho de infância, por estas imagens monstruosas de sofrimento, morte e de falta de dignidade.

Sim, dignidade por favor, até na morte!

Não vemos essa dignidade!

No desaparecimento para sempre, de uma pessoa igual a nós.

Num dia qualquer, uma Rita de cinco anos, sentou-se à minha beira no paredão da praia. Olhou para mim fixamente, comentando sem pena nem agravo, que um surfista parvo, que já tinha caído seis vezes à água. Qualquer dia ía morrer.

Respondi muito aflita, que o rapaz estava a aprender. E qualquer  dia “voava” sobre as ondas, só precisava de treinar.

Perguntei se ela já tinha visto algum muito aflito. Ela respondeu abrindo as mãos:

– Claro!

“Trivializar a experiência” significa, tornar uma experiência algo comum, pouco importante ou sem valor, reduzindo a sua complexidade ou significado original.

Por outras palavras, é reduzir uma experiência a algo banal, comum ou sem graça, sem interesse, profundidade ou importância.

Alguém consegue fazer uma grande conquista pessoal, mas os colegas referem que: -” qualquer um de nós consegue fazer isso…”

Você tem uma dor de cabeça horrível, mas a sua esposa refere que: ” ..isso não é nada, há pessoas que sofrem muito mais…”

Estes são exemplos, formas básicas de trivializar, banalizar, tornar menos válida a sua conquista, a sua dor, o seu aniversário, o seu dia especial, a sua vida.

Ao generalizar, está a tirar toda e qualquer importância áquele instante.

Trivializar, banalizar, generalizar……

Neil Postman em “Technopoly”refere a “rendição da nossa cultura à tecnologia” de tal forma que esta até poderá controlar a forma de entendermos a realidade que nos rodeia.

As imagens podem tornar-se irrelevantes pela repetição.

As fotos, as selfies tudo está a ser banalizado.

Mas não só, também as palavras usadas repetidamente, perdem o efeito desejado.

Ficam banalizadas.

“Diz Postman  a este respeito que «ao dizer uma qualquer palavra, mesmo que seja significativa, vezes e vezes sem conta (…) mais cedo do que pensamos, iremos perceber que a palavra se transformou num som sem significado, com a repetição a drená-la do seu valor simbólico.» 

 

  Partilhar este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *