Está realmente próximo o fim do capitalismo e isso significará que os ricos e as multinacionais pagarão a dívida e repartirão a sua riqueza?
Cada vez se ouve com mais força que o capitalismo está a chegar ao fim. A ideia surge em debates políticos, análises económicas e conversas do dia a dia marcadas pela inflação, pela precariedade, pela desigualdade e pela concentração extrema de riqueza. Mas quando se fala desse suposto fim, surge uma pergunta tão lógica quanto incómoda: se o capitalismo colapsar, isso implicará que os multimilionários e as grandes multinacionais repartirão o seu dinheiro de forma igual e assumirão a dívida que eles próprios ajudaram a gerar?
A resposta, por dura que seja, é que não há precedentes que indiquem algo assim. Nenhum sistema económico desapareceu porque aqueles que mais beneficiaram dele decidiram voluntariamente devolver o que ganharam ou pagar o custo dos seus desequilíbrios. Os sistemas não caem por altruísmo; transformam-se quando deixam de ser funcionais e quando as tensões internas obrigam a uma reorganização do poder. E nesses processos, o capital não se dissolve, protege-se.
Grande parte da riqueza dos multimilionários não existe como dinheiro disponível para ser repartido, mas como controlo sobre ativos, empresas, infraestruturas e fluxos financeiros. Da mesma forma, a dívida não está formalmente em nome deles, mas nos balanços dos Estados e, em última instância, na vida dos cidadãos. Embora as grandes corporações influenciem decisivamente a sua geração através de pressão fiscal, resgates públicos, deslocalizações ou engenharia financeira, raramente figuram como responsáveis diretas quando chega o momento de pagar.
PUBA história mostra que, nas crises profundas, não ocorre uma redistribuição justa a partir do topo, mas sim uma socialização das perdas. Direitos são cortados, sacrifícios coletivos são justificados e o peso é transferido para quem tem menos capacidade de evitar o impacto. Enquanto isso, o grande capital reorganiza-se, refugia-se e acaba por emergir reforçado sob novas regras.
Por isso, quando se fala do “fim do capitalismo”, convém compreender que não se trata do nascimento automático de um sistema mais justo, mas de uma transição em que se decidirá quem manda, quem paga e quem fica exposto. O verdadeiro risco não é que os ricos percam tudo, mas que o sistema mude o suficiente para continuar a protegê-los, enquanto o custo volta a recair, mais uma vez, sobre a maioria.
Frase final:
Se o capitalismo terminar sem mudar a lógica que protege o poder e transfere as perdas para os de baixo, não será um fim: será simplesmente a mesma dívida, com outro nome e com os mesmos a pagar.
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