Crítica Social

Quando o dinheiro deixa de ser uma necessidade e se torna poder.

A desigualdade não é um erro do sistema. É um dos seus resultados mais visíveis e, paradoxalmente, mais aceites.

Fizeram-nos acreditar que é uma consequência natural do mérito, do esforço ou do talento, quando na realidade responde a uma lógica muito mais simples: o dinheiro gera dinheiro, e quem o possui acumula poder sem precisar de produzir algo novo.
Existe um ponto a partir do qual o dinheiro deixa de servir para viver melhor. Esse ponto é alcançado quando a moradia, a alimentação, a segurança e uma vida digna estão garantidas. A partir daí, o dinheiro não compra mais bem-estar: compra influência. Compra silêncio. Compra privilégios. Compra impunidade.
Esse é o verdadeiro problema da desigualdade atual. Não é que existam pessoas com recursos, mas sim que não haja limites para o excesso. Vivemos em sociedades que regulamentam a velocidade, o solo, a água, a energia e até mesmo o ar que respiramos, mas não ousam impor freios à acumulação desmedida de riqueza, mesmo que essa desequilibre a sociedade muito mais do que qualquer outra atividade humana.
A riqueza extrema não é uma necessidade económica, é uma demonstração de poder. Não é acumulada para viver melhor, mas para dominar, influenciar, condicionar decisões políticas e perpetuar vantagens. Nesse ponto, o capital deixa de ser produtivo e torna se extrativo: toma mais do que devolve.
Não se trata de punir aqueles que prosperam, mas sim de reconhecer que o excesso tem consequências coletivas. Assim como existem limites para a poluição ou o uso do território, deveria existir um quadro que evite que a acumulação sem freios degrade a coesão social.
Porque uma sociedade que tolera que alguns tenham tudo enquanto muitos mal sobrevivem, não é uma sociedade livre nem justa. É uma sociedade desequilibrada, frágil e condenada ao conflito.
A questão não é se é legítimo ter muito.
A questão é por quanto tempo um sistema onde o poder é medido apenas pelo que se acumula e não pelo que se contribui pode ser sustentado.

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