Crónica de uma Exilada no Paraíso

Durante 25 anos morei em Lisboa, agora vivo numa pequena cidade do interior a que chamam Tarouca.

Que saudades tenho da nossa capital!

Aqui, neste fim de mundo, acordo com o canto dos pássaros, em vez da suave sinfonia das buzinas, sirenes e obras às sete da manhã. O meu nariz já não se deleita com o aroma delicado do gasóleo mal queimado e do metro cheio às oito da manhã, em vez disso, respiro ar fresco e perfumado, que estraga qualquer pulmão habituado à poluição da bela Capital.

Depois, há o contratempo de não poder passar horas parado no trânsito, de passar duas horas dentro do carro, todos os dias, a contemplar o para-choques do vizinho da frente, numa verdadeira meditação urbana.

Como se vive sem essa adrenalina de estar parado, com a mão pronta para buzinar e o dedo do meio ansioso por se levantar?

Aqui, por mais que tente prolongar a viagem, o máximo que consigo é parar dois segundos para deixar passar um trator ou um animal, e às vezes só tenho de abrandar.

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Manso Preto

O convívio, então, é um tormento. Os vizinhos insistem em bater-me à porta com cestos de fruta acabada de colher, em encher-me o frigorífico de legumes frescos. Às vezes até deixam sacos de cebolas ou batatas por cima do muro, sem pedir nada em troca. Isto não é vizinhança, é abuso de generosidade! E, como senão bastasse, ainda me dizem “bom dia” na rua, com sorrisos e perguntas genuínas sobre o meu bem-estar.

Quem me dera continuar a privar com os vizinhos de Lisboa, aqueles com quem partilhei a mesma parede durante anos sem nunca ter trocado uma palavra, no conforto do anonimato.

Que saudades de Lisboa, onde morei durante anos, lado a lado com pessoas cujo nome nunca soube, e cuja única comunicação era o som dos saltos no andar de cima às três da madrugada.

E quanto ao trabalho, que falha tremenda!

Aqui não há a emoção das reuniões intermináveis para decidir o que já estava decidido, nem a oportunidade de ficar preso no escritório até às nove da noite para provar dedicação.

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Em vez disso, o tempo sobra.

Dá para chegar mais cedo, ir passear, conviver, e até descansar.

Que saudades tenho de chegar a casa tão tarde que só tinha forças para um jantar de micro-ondas.

E quanto ao entretenimento, um verdadeiro pesadelo. Aqui não tenho a sorte de passar três horas num shopping à procura de lugar para estacionar, para depois entrar numa loja igual às outras todas. Em vez disso, tenho de me contentar com trilhos onde a vista me rouba o fôlego, cascatas que parecem cartões-postais e cinema onde o bilhete custa um terço do preço.

Não há cá a sofisticação de pagar 100 euros por um concerto internacional, numa arena gigantesca, onde só se vê o artista com uma lupa.

Em vez disso, oferecem-nos festas locais, cheias de música popular, danças, gastronomia e convívio. Francamente, onde é que já se viu assistir de perto a um espetáculo, sentir-se parte dele, sem filas, sem confusão e por quase nada?

E as crianças, coitadas, aqui ainda brincam na rua, sobem às árvores, jogam à bola até ao escurecer, sempre com alguém a cuidar.

Francamente, que insegurança é esta? Em Lisboa, ao menos, ficavam seguras em casa, entretidas com tablets e videojogos, longe dos perigos terríveis de… subir a uma árvore.

Aqui, até a comida me revolta. Restaurantes baratos, pratos cheios, sabores caseiros. Onde está a modernidade de pagar dez euros por um café e um croissant “artesanal” de massa folhada?

Onde está o glamour de esperar meia hora por um lugar numa esplanada?

Enfim, que saudades de Lisboa, dessa capital vibrante onde trabalhamos até cair, pagamos para nos stressar e vivemos rodeados de desconhecidos indiferentes.

Ah, Lisboa… que saudades tenho de aí morar!

Mas pronto, o que hei de fazer, se este fim de mundo tem tudo para lhe chamar lar?

Aqui, o ar tem cheiro de pão quente a sair do forno e de terra molhada depois da chuva.

Comer é saborear a paisagem: os campos, as mãos que os cultivaram, o ciclo das estações.

Na mesa, o tomate vem da horta, ainda húmido de orvalho, e o vinho tem o calor da vinha onde cresceu sob o sol. A vida não é apressada. É feita de passos lentos, de conversas demoradas à soleira da porta, de crianças que correm descalças atrás do rio. É feita da certeza de que o mundo pode ser simples, e ainda assim imenso, porque nele cabem todos os sentidos. O entardecer chega devagar, tingindo de ouro as searas e de púrpura as encostas. A brisa traz consigo o perfume das oliveiras e o som distante de um sino a anunciar a noite.  Então, quando as luzes rareiam e o céu se veste de estrelas, descobre-se uma beleza rara que não precisa de mais nada.

Que saudades tenho, de viver na Capital!

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15 comentários

  1. Fina ironia a que descreve este maravilhoso texto,como que dando uma chapada de luva branca na cosmopolita cidade de Lisboa.

  2. A ironia é utilizada de forma inteligente para valorizar a vida no interior em contraste com a agitação e superficialidade das grandes cidades. Ao exagerar os inconvenientes urbanos, como o stress, o trânsito e a pressa constante , e apresentá-los de forma quase caricata, consegue realçar, com humor, as qualidades do interior: tranquilidade, contacto com a natureza, ritmos mais humanos e comunidade mais próxima. A ironia reforça a mensagem de que, apesar das “vantagens” modernas das cidades, o verdadeiro bem-estar pode estar na simplicidade e no sossego do campo, convidando o leitor a refletir sobre prioridades e qualidade de vida.

  3. Lisboa e o seu dia a dia, em oposição á calma , ao sossego e ao bem estar de um saboroso e bem merecido exílio Tarouquense, que mais uma vez, sábia e divertidamente permite o retrato da realidade.

    Tu Dina, não és um ” doce ” ,mas sim uma excelente ” compota ” de palavras delicadamente escolhidas e no ” ponto ” certo…

    Bem hajas.
    Excelente continuação de sábado

  4. Utilizar a ironia e o humor num texto crítico é uma habilidade poderosa, permite transmitir julgamentos e reflexões de forma perspicaz, sem perder a leveza.
    Mostra inteligência, sensibilidade literária, mas também a capacidade de influenciar e provocar a reflexão sem recorrer à censura.
    Parabéns.

  5. Retrato fiel de duas vidas quotidianas descritas com notável realismo com ironia despertante.

  6. Excelente texto em que a Dina, descreve com ironia e bastante humor duas realidades totalmente opostas.

  7. Perigoso, fazer dor de cotovelo ás gentes do Litoral. Não tarda assistimos á debandada em direcção ao interior!!!

  8. Parabéns Dina. Um texto que permite uma comparação real e, simultaneamente, irónica, entre uma cidade e as aldeias de Portugal. Maravilhoso. Bj

  9. Que texto maravilhoso. Uma ironia espetacular. Mas atenção, não vá começar uma debandada para o interior. Parabéns Dina.

  10. Excelente reflexão
    Muitos parabéns
    Adorei
    Antonieta Dias

  11. Prisioneiros de uma cidade que absorve e consome cada vez mais, que nos faz esquecer que existe tempo, que existe algo diferente, que existem algo mais do que rotina para a alimentar.
    Que saudades de regressar ao campo………..

  12. Um texto muito bem estruturado onde retrata as duas realidades completamente distintas. Como Tarouquense devo dizer que realmente viver na aldeia dá-nos uma paz na alma, viver com tranquilidade, embora hajam as dificuldades de emprego.
    Quando me desloco à minha terra , encho os meus pulmões de ar e rejuvenesce a minha alma.

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