Introdução: A Era da “Policrise”.1. Vivemos num momento histórico que muitos analistas classificam como uma “policrise”.
Ao contrário de décadas passadas, onde os desafios eram isolados, hoje enfrentamos uma tempestade perfeita: instabilidade económica, polarização social, alterações climáticas e, acima de tudo, o regresso da competição entre grandes potências. A ordem mundial estabelecida após a Segunda Guerra Mundial e consolidada após a Guerra Fria está a desfazer-se. A sensação de segurança que o mundo ocidental, e a Europa em particular, sentiu nas últimas décadas provou ser uma pausa na história, e não o seu fim.
2. O Regresso da “Hard Power” (Poder Militar)
Durante anos, muitos países acreditaram que o comércio internacional e a diplomacia seriam suficientes para evitar conflitos de grande escala.
Contudo, a invasão da Ucrânia, as tensões no Indo-Pacífico e a instabilidade no Médio Oriente demonstraram que a força militar (o Hard Power) continua a ser um determinante brutal das relações internacionais.
A necessidade de os países se prepararem para a guerra não nasce necessariamente de um desejo de combate, mas sim da lógica da dissuasão. A velha máxima latina “Si vis pacem, para bellum” (Se queres a paz, prepara-te para a guerra) nunca foi tão atual. Um país desarmado ou com defesas obsoletas torna-se um alvo tentador para regimes expansionistas. O rearmamento, portanto, surge como uma ferramenta para evitar a guerra, tornando o custo de um ataque inaceitável para o agressor.
3. Para Além das Armas: A Resiliência Civil
Preparar-se para uma eventual guerra no século XXI vai muito além de comprar tanques ou aviões. A guerra moderna é híbrida.
* Cibersegurança: Proteger infraestruturas críticas (energia, água, bancos) de ataques informáticos.
* Autonomia Estratégica: Garantir que o país não depende de nações rivais para obter energia, alimentos ou tecnologia (como microchips).
* Preparação da População: A sociedade civil precisa de estar mentalizada e preparada para cenários de crise, sabendo como reagir em caso de falhas nas comunicações ou no abastecimento.
4. Conclusão: O Equilíbrio Necessário
O mundo caminha sobre uma linha ténue. O desafio para os governos atuais é duplo: devem investir na defesa e preparar as suas populações para o pior cenário possível, sem que isso crie uma profecia autorrealizável ou uma escalada de tensões desnecessária.
A preparação para a guerra é, paradoxalmente, o preço que temos de pagar para tentar manter a paz. Ignorar a realidade geopolítica não nos deixará mais seguros; apenas nos deixará mais vulneráveis quando a tempestade chegar.
Antonieta Dias
Médica Doutorada em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto;
Especialista de Medicina Geral e Familiar e Medicina Desportiva;
Perita em Medicina Legal com Competência na Avaliação do Dano na Pessoa -Medicina Legal e Peritagem Médica da Segurança Social, atribuída pela Ordem dos Médicos;
Auditora de Defesa Nacional.
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