Nos últimos dias, o país assistiu a uma comoção provocada por um anúncio televisivo de Miguel Milhão, fundador da Prozis, intitulado “Obrigado Mãe”.
Para alguns, foi uma celebração da vida. Para outros, um “ataque violento aos direitos das mulheres”. Mas convém ir mais fundo. Porque nada pode ser mais violento para uma mulher do que negar-lhe a oportunidade de nascer.
A “interrupção voluntária da gravidez” (IVG) tem sido promovida como conquista civilizacional, mas permanece um tabu onde reina mais ideologia do que razão. A controvérsia do anúncio expôs a contradição central do discurso contemporâneo: invoca-se um “direito” para justificar a negação do mais fundamental de todos — o direito à vida. E neste caso, não estamos a falar de abstrações. Estamos a falar de seres humanos reais, do sexo feminino e masculino, eliminados antes de poderem respirar pela primeira vez. Quantas mulheres foram impedidas de nascer em nome da “liberdade” de outra mulher?
Os direitos das mulheres não podem existir num vácuo ético. Não podem excluir, por princípio, as mulheres que ainda não nasceram. Ao contrário do que se pretende fazer crer, defender o direito à vida não é um ataque a ninguém, é uma tomada de posição clara contra a barbárie institucionalizada e eufemizada por linguagem politicamente correcta. Dizer que a IVG é um “direito” é equiparar liberdade a poder absoluto sobre a vida alheia. Mas liberdade não é poder. Liberdade é responsabilidade.
Miguel Milhão tocou num nervo exposto: há uma geração inteira que foi ensinada a desvalorizar a maternidade, a rejeitar o sacrifício, a confundir autonomia com egoísmo e a considerar a vida humana um inconveniente descartável. Essa é a geração que diz que um feto não é uma pessoa. Décadas de ideologias progressistas promoveram a desumanização da vida intrauterina – a não ser que esta seja desejada pelos pais. É um abismo moral e existencial.
O verdadeiro ataque aos direitos das mulheres está na cultura que as ensina a temer o seu corpo, a odiar a sua natureza fértil, e a ver na gravidez uma ameaça à sua realização pessoal. Está na pressão subtil (e às vezes brutal) para que abortem, por não terem “condições”, como se alguém alguma vez tivesse as “condições ideais” para criar um filho. Está na sociedade que não protege as mães, mas celebra que elas eliminem os filhos para poderem seguir com a vida como se nada fosse.
É tempo de inverter esta lógica. De deixar de chamar progresso ao retrocesso moral. De reconhecer que toda vida humana merece defesa, independentemente do seu estágio de desenvolvimento e especialmente nos estágios mais vulneráveis. E que não há maior afirmação dos direitos da mulher do que garantir que cada menina tem o direito de nascer, de crescer, de escolher e de agir no mundo à sua maneira.
“Obrigado Mãe” não foi um ataque. Foi um apelo. Um lembrete de que alguém acreditou em nós quando éramos apenas uma célula. Que alguém, com todas as dificuldades, escolheu a vida. E é precisamente por isso que hoje temos voz para opinar, protestar, ou agradecer. Porque o direito à vida é o alicerce de todos os outros.






