Terá sido Friedrich Nietzsche quem escreveu que, uma vez resolvido o problema da sobrevivência, a humanidade confronta-se com o problema da supervivência, ou seja: que sentido tem isto tudo? A pergunta agarra-nos pois vivemos entre o excesso e a fadiga — excesso de estímulos, fadiga de sentido.
A tecnologia prometeu ligação e entregou isolamento. Empresas de hardware e software criaram um ecossistema que produz dependência: redes sociais, apostas, pornografia, exposição permanente. Vive-se ligado a ecrãs que pressionam adultos, adolescentes e crianças a imitar aparências, a competir por atenção, a confundir valor com visibilidade. A inveja instala-se, abrindo caminho à depressão, ao cyberbullying e, nos casos extremos, ao suicídio.
A inteligência artificial surge como oráculo. Mas os algoritmos veem padrões, não veem sentido; calculam tendências, não imaginam destinos. O prazo ultralongo — cinquenta, cem anos — permanece invisível. Esta cegueira torna-se perigosa quando decisões estruturais são delegadas em sistemas incapazes de compreender aquilo de que a humanidade precisa para prosperar.
O entretenimento made in Hollywood segue o mesmo caminho. O streaming privilegia quantidade sobre qualidade, produzindo mais conteúdo com menos pensamento. Motores de busca e redes sociais operam segundo lógicas opacas, orientadas para o curto prazo e para a captura da atenção. A promessa de neutralidade algorítmica revelou-se ilusória: amplifica-se o ruído, distorcem-se prioridades, transforma-se a informação em hierarquias convenientes. “Andar na net” passou a significar ser registado, classificado e influenciado — no consumo, na linguagem, no pensamento.
A tecnologia da informação deixou de servir o utilizador para servir, sobretudo, acionistas e gestores de topo. Trata-se de uma redistribuição regressiva. Invenções que foram geniais revelam hoje sinais de esgotamento estrutural. O que foi invenção genial de Steve Jobs em 2010, o I-PAD, está a banalizar-se. Fontes radioativas de informação não educam: revertem o processo de aprendizagem, destroem conhecimento e introduzem preconceito. A exposição prolongada gera vaidade, hedonismo, insegurança e egocentrismo — um perfil cada vez mais normalizado, enfim, o perfil de Trump.
A Wikipédia começou bem em 2001 com Jimmy Wales. Mas perguntem à atual CEO maryanaiskander@gmail.com o que é o suposto “código de conduta universal” lançado em 2021. Eis a arrogância das elites de Nova Iorque e São Francisco, que ignoram que o mundo é, felizmente, plural, mas tragicamente marcado por pobreza, exclusão e abandono. Este modo de pensar simplista procura impor-se ao resto do mundo através do dinheiro e da força militar. Ilustra-o o comentário insolente de Gavin Newsom em Davos sobre a alegada cumplicidade dos europeus na eleição de Donald Trump. E a cumplicidade dos californianos que o deixaram eleger?
As elites tecno-informáticas americanas criaram ferramentas brilhantes, mas nunca conceberam um modelo cultural ou ético à altura dessa tecnologia. Os abusos da Google, YouTube, Netflix, Instagram, Facebook, Wikipédia, Amazon e TikTok revertem o processo de aprendizagem, destroem o conhecimento e introduzem preconceitos.
Também o investimento sofre desta miopia. Grandes fundos (BlackRock, State Street e soberanos) continuam presos ao curto prazo, mesmo perante a crise climática. Esquece-se a pergunta essencial: que atividades são indispensáveis para uma transição civilizacional saudável? Sem distinguir entre empresas que contribuem para a coesão social e a sustentabilidade e aquelas que alimentam vício, desigualdade e destruição, o crescimento torna-se autodestrutivo.
A política, tal como é praticada, tornou-se repetitiva, ruidosa e previsível. O resultado é uma audiência saturada, desconfiada e cada vez menos disponível para ouvir; não é a informação que é rejeitada; é a forma como é imposta.
Vivemos em pós-política. A política clássica vive do confronto permanente, da exposição excessiva e do “sempre em cena”. Mas em pós-política temos de assumir que informar, educar e persuadir exige inteligência narrativa. Tal como no entretenimento de qualidade, a eficácia depende de ritmo, alternância de protagonistas e da gestão do silêncio. Quem governa não pode ocupar sempre o palco, sob pena de provocar rejeição. A visibilidade mal administrada gera fadiga; a escassez bem pensada gera autoridade.
Neste novo paradigma, as escolhas são de longo e ultralongo prazo: paz, sustentabilidade, justiça intergeracional, futuro tecnológico. A experiência demonstra que impor políticas através da força — militar, económica ou mediática – pode gerar obediência momentânea, mas nunca convicção duradoura.
PUBNada é Verdade e Tudo é Possível é o título do livro de Peter Pomerantsev (2014), que trabalhou durante uma década na indústria do entretenimento russa e descreve o ambiente pós-soviético como um espaço manipulado, onde a maioria das pessoas se vê obrigada a contornar as regras, porque estas raramente se aplicam de forma consistente ou real.
Com o fenómeno MAGA, os Estados Unidos aproximam-se perigosamente desse mesmo estado: um espaço onde a política se transforma em espetáculo permanente, a verdade se perde e a sobrevivência do mais forte passa acima de tudo.




