Crónica da Europa: Império da Infâmia

É o petróleo e não a droga que move os EUA a fazer guerra à Venezuela.

Os EUA voltam aos “Piratas das Caraíbas”. A marinha norte-americana está a destruir vidas humanas e embarcações nos mares entre a Colômbia e a Venezuela, em nome da “guerra ao narcotráfico” mas há grandes dúvidas sobre a natureza dos tripulantes e da carga. O almirante Alvin Holsey, chefe do comando militar responsável pelas operações na América Latina, vai deixar o cargo no final deste ano, ou, por outras palavras, demite-se por discordar do rumo que as coisas estão a tomar.

Essa operação parece ser preparatória de uma “operação secreta” da CIA – anunciada pelo presidente Trump – e suspeita-se que será destinada a provocar um incidente com o destróier USS Gravely, ancorado em Trinidad, a 30 km da Venezuela. Em 1898, a explosão do couraçado USS Maine em Havana serviu de pretexto para os EUA declararem guerra à Espanha. Em 1964, o falso ataque no Golfo de Tonquim justificou a invasão do Vietname. A falhada operação da Baía dos Porcos ocorreu em 1961, em Cuba. Muda o século, mantém-se a encenação, agora sob a batuta de Marco Rubio.

Greg Palast, antigo repórter da BBC, lembra a verdade principal: “As operações dos EUA contra a Venezuela visam dominar as maiores reservas de petróleo do planeta”, quatro vezes mais que a Arábia Saudita. O alvo é o petróleo — e sempre foi. Chevron e Exxon querem voltar à exploração, mas o embargo norte-americano bloqueia exportações e impede a manutenção. A produção da Venezuela desceu de 2,4 milhões para 700 mil barris diários. “Imaginem o Texas impedido de vender o seu petróleo”, ironiza Palast. Seria uma tragédia nacional. Mas quando é a Venezuela, chamam-lhe “restauração democrática”. Menos petróleo no mercado, mais lucros e o pretexto para “libertar” Caracas.

As refinarias capazes de processar o crude venezuelano pertencem aos irmãos Koch, financiadores de Trump. Outras, da estatal CITGO, foram roubadas e entregues ao “Presidente made in Washington”, Juan Guaidó. O Wall Street Journal cita planos para “raptar ou eliminar Maduro”. Em 2002, o presidente Chávez foi sequestrado com a bênção de Washington, mas depois foi resgatado por milhares de pessoas e manteve apoio popular. Maduro venceu duas eleições, mas perdeu as legislativas de 2015, quando a oposição — liderada por Henrique Capriles e María Corina Machado — conquistou a Assembleia Nacional. Desde então, Maduro governa em confronto com esse poder. Falsificou, comprovadamente, o resultado das eleições de maio de 2025, tendo a oposição, liderada por María Corina Machado, recebido o muito politizado Prémio Nobel da Paz .

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Por outro, lado, Trump suspendeu a ajuda militar e económica à Colômbia após um confronto com o presidente Gustavo Petro, ex-militante das FARC. Essa decisão ameaça destruir anos de programas apoiados pelos EUA que substituíam o cultivo da coca por café, flores e cacau nas terras baixas férteis. A guerra civil da Colômbia só acalmou com esse apoio externo, segundo Peter Zeihan. Sem financiamento, os agricultores regressarão à coca, uma das poucas fontes de rendimento viáveis. E num momento em que os EUA se afastam do fentanil, o mundo poderá assistir ao renascimento da economia da cocaína.

Não percamos de vista que é o petróleo e não a droga que move os EUA a fazer guerra à Venezuela. Mas a Venezuela não é epicentro do narcotráfico; o Império da Infâmia passa pelo cartel Kinahan, uma família e organização criminosa de Dublin que montou uma teia transnacional de tráfico, branqueamento e violência. Em Abu Dhabi e Dubai— oásis de luxo onde o crime se mistura com a alta finança, os Kinahan estão a ser alvo de congelamentos de ativos e operações policiais mas é difícil desmontar um grupo que opera entre jurisdições discretas e paraísos financeiros.

O dinheiro do tráfico atravessa fronteiras “respeitáveis” — bancos, imobiliário, empresas de eventos, entretenimento e desporto — e encontra protecções onde o Estado fecha os olhos. O caso Kinahan/Emirados ilustra como interesses económicos, diplomacia e blindagem jurídica se combinam para manter modelos criminosos. Vivemos num império da infâmia no sistema financeiro, social e político que tolera (ou favorece) lucros vultosos à margem da lei.

Enquanto ataca os efeitos, o Ocidente finge não ver as causas. Um cartel vive de clientes. A produção e o transporte são as fases logísticas — mas o motor são os mercados consumidores, nas Américas e na Europa. Dito de outro modo: enquanto houver milhões de indivíduos dispostos a pagar por cocaína, fentanil e outras drogas, existirão fabricantes, distribuidores e financeiros que encontrarão rotas — e zonas onde operar. Conforme o World Drug Report da ONU o negócio adapta-se. Eliminar pontos de trânsito ou prender líderes reduz danos, mas não seca a procura.

O consumo massivo de drogas nos Estados Unidos e Europa é a doença social e moral com muitas causas que alimenta cartéis; causas são a desintegração familiar, desigualdades, estigmas, falhas no sistema de saúde mental, repressão da criatividade. Para desmontar a economia do tráfico, é preciso começar por políticas que reduzam a procura: prevenção, tratamento, redução de danos e uma mudança cultural que mostre que o consumo é uma doença social a ser combatida.

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