A política ucraniana entrou nas últimas semanas em fase de turbulência, marcada pela demissão de Andrii Yermak, até agora chefe de gabinete de Volodymyr Zelensky e figura central na coordenação do poder executivo durante a guerra.

Zelensky sauda o general Kyrylo Budanov (photo credit: Wikimedia Commons)
A saída de Yermak, investigado pela NABU num caso de corrupção de alto nível, foi recebida com um misto de alívio e expectativa pela sociedade ucraniana, que vê neste episódio tanto um sinal de desgaste acumulado ao longo de quase três anos de guerra total como uma oportunidade para reequilibrar o sistema político.
A evolução desta crise levantou especulações sobre a capacidade de Zelensky para manter a estabilidade governativa. Durante a invasão russa, o Presidente concentrou um conjunto excecional de poderes, justificados pela lei marcial e pela necessidade de preservar a integridade do Estado. Medidas como a centralização de decisões no Executivo, a suspensão ou limitação de partidos suspeitos de colaboração com Moscovo e o controlo reforçado sobre os serviços de segurança foram indispensáveis à sobrevivência nacional.
Com a saída de Yermak, coloca-se agora a questão de saber se Zelensky conseguirá sustentar a mesma estrutura de decisão. O Presidente construiu, desde fevereiro de 2022, um capital político único na história recente da Ucrânia: foi a sua determinação, presença nas frentes de combate e habilidade diplomática que galvanizaram o país e garantiram o apoio internacional sem o qual Kiev dificilmente teria resistido.
A eficácia da NABU (Serviço Nacional Anticorrupção da Ucrânia) (e a SAPO) trouxeram uma nova complexidade. Ninguém afirmou que Zelensky tenha beneficiado pessoalmente da corrupção. O que está documentado são tensões entre o Executivo e os organismos de investigação, num momento em que estes se aproximavam de figuras do círculo presidencial. Episódios como a tentativa de reconfigurar a tutela institucional da NABU ou a detenção controversa de um dos seus investigadores geraram suspeitas e críticas internas, mas também devem ser lidos no contexto de guerra, onde a infiltração russa, a guerra de contra-informação e a necessidade de controlo rigoroso de fluxos sensíveis podem levar a decisões tomadas sob pressão.
Zelensky , sempre hábil com os media, cometeu um enorme erro tático ao tentar terminar as investigações do NABU em Agosto, como mostrou o general Kyrylo Budanov, um dos grandes heróis da guerra. Foi a própria arquitetura anticorrupção criada e reforçada após 2019 — com forte apoio europeu — que permitiu expor fraudes em pleno conflito. Para muitos observadores, este facto demonstra que as instituições ucranianas, apesar de fragilizadas pela guerra, permanecem vivas e operacionais, ao contrário do que sucede em regimes autoritários onde a corrupção é totalmente silenciada. A crise atual, argumentam esses analistas, é menos um sinal de declínio do Estado e mais uma etapa na dolorosa, mas necessária, consolidação do controlo democrático.
Outro eixo de debate é o papel de Zelensky na condução da estratégia militar. historiador es militares como Tom Cooper e Don Hill) acusam o Presidente, em conjunto com o comandante-chefe Oleksandr Syrsky, de por vezes privilegiar objetivos de comunicação em detrimento de opções militares estritas. O mesmo afirma o general Zaluzhny como diz o principal analista militar ucraniano. Contudo, num conflito em que o apoio externo depende fortemente da opinião pública global — desde fornecimentos militares até ao auxílio financeiro — a comunicação não funciona apenas como “PR”; é uma arma estratégica. Sem a capacidade de Zelensky para mobilizar aliados e opinião pública ocidental, dificilmente a Ucrânia manteria a resiliência demonstrada até agora.
A questão territorial permanece o dilema maior. A Rússia mantém ofensivas em vários eixos e avança. O Ocidente, embora solidário, não está disposto a intervir com o nível de força necessário para inverter a situação no terreno. Isto coloca Kiev perante três caminhos: continuar a resistir mesmo com perdas crescentes; aceitar negociações duras e amargas; ou esperar por uma mudança internacional que, para já, não se vislumbra.
PUBPutin corrupto, mantém por agor ao poder. A resposta começa pela diferença fundamental entre os dois países: a Ucrânia é mais democrática e o Presidente não dispõe do controlo absoluto típico do regime russo. Durante décadas, os empresários têm relatado um sistema caótico onde diferentes grupos roubam enquanto estão no poder, enquanto na Rússia Putin centralizou e “organizou” a corrupção. A NABU — criada no contexto das reformas pró-europeias — demonstra que a Ucrânia possui mecanismos reais de escrutínio inexistentes na Rússia.
Os supremacistas ocidentais como o autor pagão Niall Ferguson já iniciaram as suas jeremíadas de que Os bons nem sempre vencem, e a história nem sempre produz resultados justos. Por vezes, a escolha menos má, de entre várias más opções, é o caminho certo num recente ensaio . Por seu lado , Warren Buffett, de 95 anos, veio dizer que “Não se acabam guerras dando terras ao agressor que as iniciou”?
Zelensky já afirmou que não tenciona recandidatar-se após a paz. Uma negociação poderá, assim, permitir-lhe encerrar o seu mandato com dignidade histórica e abrir caminho a uma nova fase democrática. Será sempre, para muitos ucranianos e europeus que contas— a figura indispensável para conduzir o país neste momento da sua história. Apesar das polémicas e das fragilidades, Zelensky continua a ser visto como o líder que impediu a queda de Kiev e que preservou a independência da Ucrânia quando tudo parecia perdido.



