Comecei por perguntar à IA o que é o traumatismo ucraniano. “Refere-se ao conjunto de traumas sofridos pela população ucraniana devido ao conflito armado com a Rússia. Estes traumas podem ser físicos, psicológicos e sociais, e são causados por violência, deslocamento, perda de familiares e amigos, e as dificuldades de vida resultantes do conflito.” Não está mal para a “desinteligência artificial”, como lhe chamaram os meus alunos Vasco e Nuno. Mas de que serve esta prosa face à brutalidade de um milhão de baixas russas e 400.000 ucranianos?
Foi em 2014 que os ucranianos se ergueram contra o gangue criminoso que governava a Ucrânia e ainda governa a Rússia. Protestaram na praça de Maidan, onde os homens e mulheres da “centúria celestial” perderam a vida nas barricadas. Para quem como nós, víamos na televisão essas manhãs de fevereiro, deu-nos para visitar Kiev logo que possível. Para quem sufocava nesses restos da Cortina de Ferro, era a dignidade. Como no século XIX eslavo, a Europa tornou-se um mito sobre a vida humana. Personificava os direitos individuais, o respeito pela dignidade, a liberdade. Não lhes passava pela cabeça a União Europeia dos negócios, mas uma casa comum. A Ucrânia disse: “Je suis Europe” mas a Europa nada respondeu quando os “homezinhos verdes” e as “pessoas polidas” invadiram a Ucrânia e começaram a guerra no Donbass.

A distância de Lisboa a Kyiv, 3346 km, num monumento na praça de Maidán, Kyiv (foto do autor)
Tudo isso foi há 11 anos. Desde então, muita coisa se passou. A guerra acelerou desde a manhã de 24 de fevereiro de 2022 e a Ucrânia já demonstrou não poder perder. Por exemplo, o ataque surpreendente de 1 de Junho às bases aéreas por drones saídos de camiões infiltrados na Rússia profunda (ver vídeo em baixo, no final) veio destruir ou danificar uns 20 ou 30 bombardeiros estratégicos: é um outro tipo de traumatismo ucraniano, neste caso sofrido por Putin. O porta-voz Peskov já veio dizer que a retaliação virá na forma e data que os militares decidirem.
Putin é um “traumatizado”. Aquele que começou por ser um miúdo europeu de S. Petersburgo; que há uns 50 anos se formou como agente da implacável KBG; e que desde há 25 anos se tornou o ditador do Kremlin, nunca perdoará que o povo irmão tenha alcançado a independência e a democracia. A sua propaganda diz aos russos mumificados que a NATO e a Europa estão a travar uma guerra cujo objectivo é a destruição da pátria; que esta é uma ilha rodeada de inimigos e a Europa é o “berço do fascismo”. A propaganda mente, mas a mentira é uma arma poderosa e, nesta fase da história, ela também já se instalou no outro lado do Atlântico.
Quando os historiadores futuros narrarem o nosso início da década de 2020, falarão dos últimos anos antes da terceira guerra mundial “aos pedaços”. Os europeus estavam “doentes”, exaustos por problemas do primeiro mundo, no que já o nosso Cesário Verde tinha chamado de “O Sentimento de um Ocidental”. Coitadinhos. “Estávamos cansados?” -como diz o aborrecido Byung-Chul Han. Imagine-se o que sonharam as vagas de refugiados do Médio Oriente e de África que, entretanto, chegaram. E depois veio a Covid, seguida do fecho de fronteiras. Os nossos narcisistas esperaram que a vida “normal” regressasse. Depois da pandemia, veio a guerra. Depois foi o fim da globalização. E por fim, reapareceu Trump. Só nos apercebemos do ar quando ele se esgota.
Nós, europeus, mal percebemos o quão abençoados fomos nos últimos anos do pré-guerra – abençoados com liberdade, democracia, eleições livres. Mas os nossos demónios também estavam ativos. Estávamos enredado de pés e mãos nos gasodutos e nos oleodutos de Putin como um viciado em drogas. Estávamos a viver à conta de muitos offshores, de permanentes atentados à natureza, de um antigo regime de corrupções, desigualdades, e exclusões.
Que esta “cambada europeia” – pronunciada à maneira do Hermann José – tenha sentido como seu o traumatismo ucraniano de 2022, é milagre. Quando os soldados do Kremlin saquearam, violaram e assassinaram, a Europa respondeu: “Je suis Ukraine”. Em vez de trair os Ucranianos e os Navalnys e Kara-Murzas da Rússia, reencontrou um pouco da dignidade perdida: perante uma ameaça comum, uniu-se, sentiu solidariedade, percebeu que precisava de proteger a liberdade, a casa comum, e a defesa da vida de que não podemos abdicar.

Zelensky a 22 de fevereiro. Zelensky a 4 de abril, em Bucha
PUBPresidência ucraniana/Divulgação/Agência Anadolu via Getty Images; Ronaldo Schemidt/AFP via Getty Images
O traumatismo ucraniano fez despertar a Europa e deu um semblante de humanidade à máquina de Bruxelas. Acolheu 11 milhões de mulheres e crianças refugiadas. Está a renunciar ao dinheiro sujo com que o Kremlin inundou Londres e outras capitais europeias. Está a demonstrar solidariedade para com os ucranianos que lutam pela “sua e nossa liberdade”, pelo futuro deles e nosso, pela dignidade da Europa e de toda a humanidade. Apesar dos que dizem “precisamos de gás e paz” e que querem fazer concessões ao Kremlin porque os negócios urgem, os que protestam contra a guerra da Ucrânia não deixam morrer a maravilhosa e bela experiência de liberdade.

Manifestação em Lisboa pela Ucrânia (foto do Autor)
Mas para quê tanta atenção à guerra da Ucrânia quando, segundo a Academia de Direito Internacional de Genebra, existem uns 110 conflitos armados no mundo, dos quais uns gravíssimos como em Gaza, Sudão, Líbano, Iémen,, Filipinas, Moçambique?
A minha resposta é que o eixo da história passa pelo desfecho da guerra da Ucrânia. A Europa não pode falhar no apoio continuado aos Ucranianos, Senão, o que sucederá a Taiwan? E que fará a Coreia do Norte, após a segunda visita de Shoigu a 3 de Junho? E o que está para suceder aos vergonhosos mulás da República Islâmica do Irão?
Creio que é um erro profundo e uma maldade misteriosa acreditar no desenlace feliz e automático da história, como fazem os humanitarismos, que se baseiam na imitação do homem pelo homem. Os grandes autores que nos mostraram que a história é um grande traumatismo também nos dizem que a resistência individual à escalada da violência é fútil. Eu aprendi que só Cristo nos permite encarar, sem enlouquecer, a realidade de um mundo de conflitos. O apocalipse não anuncia o fim do mundo; funda uma esperança.
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