Imagine que emigrou. Vive há anos num país estrangeiro, onde trabalha, paga impostos, respeita as leis. O seu filho nasceu nesse país e frequenta a escola pública, fala a língua local, tem amigos, aprende o hino e sonha, como qualquer criança, com um futuro simples e feliz.
Um dia, ao ver o parlamento desse país em direto na televisão, ouve um deputado ler em voz alta o nome do seu filho. Não para o elogiar, não para o proteger, mas para o expor — como exemplo de que o país está a mudar para pior. Para insinuar que aquele nome, só por ser estrangeiro, representa uma ameaça. Esse momento, por si só, bastaria para fazer qualquer pai ou mãe cair de joelhos.
Foi isso que aconteceu em Portugal. Durante um debate parlamentar sobre imigração, o deputado André Ventura leu uma lista de nomes de crianças inscritas numa escola pública. Apenas nomes. Sem contexto, sem qualquer preocupação com educação ou integração, sem humanidade. O objetivo era claro: sugerir que o país está a perder a sua identidade e que, se nada for feito, Portugal será tomado “de assalto”.
O mais indecente — num político que já nos habituou à ausência de escrúpulos — é usar nomes de crianças como prova de uma tese política sem qualquer base académica, humana ou ética. E pior ainda, arriscar que essas crianças venham a sofrer bullying nas escolas, ou que os seus pais passem a ser ainda mais marginalizados na sociedade. Mas isso pouco preocupa Ventura, que se pudesse, mandava-os “para a terra deles”, com uma mão à frente e outra atrás — depois de tantos desses mesmos imigrantes terem ajudado Portugal na restauração, na agricultura, na construção civil ou no turismo.
O que mais me indigna, para além de se tratar de menores indefesos, é o esquecimento de que Portugal é, historicamente, um país de emigrantes. Há décadas que temos filhos a nascer fora — em França, no Luxemburgo, no Reino Unido… Já passámos por episódios de exclusão e já nos habituámos à ideia de que os nossos nomes soam “estranho” noutros países. Mas nunca deixámos de exigir respeito. Nunca aceitámos que os nossos filhos fossem tratados como as metástases de um falso cancro social só pelo nome que escolhemos lhes dar. Nem lá fora, nem aqui dentro.
É por isso que temos de fazer uma pergunta clara: se um deputado francês lesse no parlamento os nomes dos filhos de portugueses, insinuando que são sinal da decadência nacional, o que diríamos nós? Aceitaríamos calados?
Não se trata de ideologia nem de preferências partidárias. Trata-se de um limite ético. Os nomes das crianças não devem ser usados como arma política. Não se expõem menores na praça pública para marcar pontos ideológicos. Não se desumanizam famílias que apenas procuram viver melhor depois de terem fugido da miséria, da guerra ou da pobreza.
Quando um político decide que um nome estrangeiro é, por si só, um problema — sem conhecer a criança/pessoa, sem avaliar o seu carácter, sem querer saber da sua história, está a aplicar uma generalização perigosa e profundamente injusta. Hitler também começou assim, atacando pessoas só por serem judias, não pelo que eram além disso ou pelo que faziam. Quem nos dera ter partilhado a rua com o judeu Einstein, com a paquistanesa Malala Yousafzai ou com o bengali Muhammad Yunus — todos eles nomes “estranhos”, todos Prémios Nobel.
Hoje, foram os filhos dos outros. Amanhã, pode ser o nome do seu. E nesse dia, talvez perceba que o que parece um simples discurso no Parlamento pode, na verdade, ser, no mínimo, um ataque à dignidade de todos nós.
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