Somos um país de gente mansa. Aceitamos que um político diga uma coisa antes das eleições e, uma vez eleito, faça exatamente o oposto. Aceitamos a mentira, a incoerência, a promessa não cumprida. Aceitamos porque nos dá trabalho indignarmo-nos, porque dá trabalho exigir consequências. E assim seguimos, mansos.
Até a nossa revolução foi feita com flores. Em abril de 1974 derrubámos uma ditadura de quase meio século com cravos vermelhos nos canos das espingardas. O mundo admirou-nos por termos trocado balas por cravos, e nós continuamos a orgulhar-nos desse dia luminoso. Mas talvez essa mesma revolução, tão bonita e tão pacífica, tenha selado um destino de brandura coletiva. Libertámo-nos sem violência, mas também sem a raiva necessária para nunca mais aceitarmos ser enganados. Fizemos a revolução com cravos porque somos mansos — e desde então habituámo-nos a viver mansamente com a incoerência e a falta de responsabilidade de quem nos governa.
O Elevador da Glória descarrilou e Portugal inteiro também descarrila há demasiado tempo. As urgências hospitalares fecham portas, deixando grávidas sem alternativa e crianças a nascer em ambulâncias. Mais de um milhão de portugueses continua sem médico de família. Os alunos iniciam o ano letivo sem professores, enquanto o governo promete uma escola pública de qualidade que nunca chega. Os jovens adiam a saída de casa porque os salários não chegam para pagar uma renda e as políticas de habitação não travam a especulação, nem oferecem alternativas. Todos os verões ardem milhares de hectares de floresta, com as mesmas promessas de mudança, as mesmas lágrimas de quem devia tudo fazer para o evitar e sempre a mesma ausência de resultados. Nos tribunais, os processos arrastam-se durante décadas, alimentando a convicção de que quem tem poder nunca paga. E o novo aeroporto? Meio século para decidir!
Revoltamo-nos no momento, fazemos barulho durante alguns dias, partilhamos indignação nas redes sociais. Mas logo esquecemos. E, se a tragédia for com os outros, nem queremos saber. É esta passividade que permite que os políticos prometam sempre resolver, que garantam sempre mudança e que, uma vez no poder, deixem tudo na mesma — ou pior. Nós aceitamos. Porque somos mansos.
Carlos Moedas, antes de ser presidente da Câmara de Lisboa, disse que “de uma vez por todas temos de ser diferentes, os políticos têm de assumir as responsabilidades políticas… até dos erros técnicos”. O Elevador da Glória não caiu por vandalismo ou por azar: caiu porque um cabo cedeu e os sistemas de segurança falharam. Foi uma falha estrutural, técnica, que não devia ter acontecido. O presidente da Câmara de Lisboa é Carlos Moedas. E Carlos Moedas não se demite.
Eu não peço a demissão de Carlos Moedas. Peço-lhe apenas coerência.
E peço aos portugueses que deixem de ser mansos — para que possam ter filhos nos hospitais deste país, para que esses filhos tenham acesso a uma escola de qualidade, a cuidados de saúde no momento em que necessitam, para que tenham trabalho com salários dignos e o conforto de um lar. Peço que deixem de ser mansos para que os seus filhos tenham, finalmente, futuro neste país a que chamamos Portugal.
Porque, mansos, não vamos lá.
E Portugal continuará a cair, sem freio, sem glória!
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3 comentários
Para se fazer “Um Hospital” leva anos! Para o equipar leva “Anos”!
Pra conseguir médicos de todas as valências leva “muitos anos”, enfermeiros/as, pessoal para todos os serviços, leva anos e nunca está todo!
E agora “aqueles” que nada fizeram em beneficio da comunidade, vem “à praça pública” tecer os comentários de que mais gostam! Só que “os comentários” são como os relâmpagos, vem rápido e esfumam-se também rápido, e poucos deixam marcas!
E porque felizmente “alguns comentários” na minha ótica são gente com capacidade intelectual, digam “uma ou duas soluções” de interesse público! Porque “isto” do bota a baixo, não “Nos” leva a lado nenhum !
Vivo para fazer, não para destruir!
Construir hospitais e formar médicos leva anos, é verdade. Mas décadas se perderam por falta de planeamento e responsabilidade política em todas as áreas, basta pensar o tempo que levamos/perdemos a decidir o novo aeroporto (50 anos). Não é “bota abaixo”: é exigir coerência e transparência, sobretudo quando se gasta mais energia e dinheiro em jogos partidários e se aceitam financiamentos obscuros dos partidos, o que leva ao poder marionetas dos financiadores (basta pensar em Ricardo Salgado), do que que em resolver os problemas do país. E todos nós temos responsabilidade nisso ao não sermos exigentes.
Não digo que a sua revolta perante a enumeração,que faz, de tantas coisas que correram mal ,ao longo de 51 anos de democracia,não tenham razão.
Porém, ainda faltam tantas que nos fizeram recuar e ajoelhar.
Ora, quem tem tido mais responsabilidades governativas, nestes anos,tem sido o PS.
O SNS- e falo por experiência – foi levado à sua pior condição, durante 2014/2024, com um desinvestimento brutal.
Por isso, convém dizer toda a verdade,ou então não estamos a fazer um bom serviço.