O homem que fabricava chávenas não se lembrava do dia em que as tinha começado a fabricar, isoladamente, num enorme edifício quase perfeitamente automatizado.
Com uma cadeira que rangia, rangia, rangia… Mas não rangia muito. Antigamente, trabalhava com mais pessoas, mas elas acabaram por ser despedidas e ficou só ele. Ele e umas máquinas. São muito mais eficientes e rápidas, verdade seja dita, e tornavam a sua tarefa quase que desnecessária. É bom poder ter assim umas boas colegas de trabalho. No início, ficou algo frustrado e relutante, pois sentia falta dos seus colegas que foram injustamente despedidos e trocados por objetos desprovidos de vida. Podiam fazer o trabalho melhor que eles, mas não tinham a mesma naturalidade e beleza da mão humana.
As chávenas tinham um processo complexo na sua produção. Primeiro, trabalhadores de fora introduziam toneladas de argila. Talvez também fossem máquinas, ele não tinha a certeza. Essa argila entrava numa máquina que a moldava em forma de tigela. Uma outra parte entrava numa outra máquina que o moldava em forma de pequena pega. Estas duas partes, em caminhos andantes e infinitos, juntavam-se num outro compartimento que as colava. As chávenas já propriamente modeladas iam por variados e distintos caminhos cujas máquinas as pintavam de cores e feições estipuladas. Os modelos finalizados seguiam, por fim, num caminho uniforme e colorido, controlado pelo homem que fabricava chávenas.
Ele auto intitulava-se assim, apesar de somente supervisionar se alguma delas era defeituosa. De facto, não encontrava um defeito numa chávena desde há três semanas e quatro dias. Talvez chegaria ao recorde extraordinário de um mês inteiro sem defeitos! Com uma cadeira que rangia e rangia…
O homem que fabricava chávenas, ao longo das suas oito horas de trabalho, lembrava-se de outros tempos em que ele realmente fabricava chávenas. Porém, pareciam-lhe muito longínquos. Lembrava-se de ser acompanhado por outros fabricantes e supervisores que faziam tudo à mão, mas tudo lhe parecia mesmo demasiado longínquo, como se fosse um sonho… E os seus sonhos tinham muitas chávenas. Perguntava-se, às vezes, se estava a perder a sua memória. Se se estava a esquecer dos tempos em que nada disto era automatizado. Em que as próprias chávenas pareciam ganhar vida com cada mão e cada sorriso.
Fora dos seus sonhos, a sua realidade resumia-se a ficar sentado numa cadeira velha e rangente a observar as dezenas e dezenas de chávenas que lhe percorriam os olhos de segundos a segundos.
Ele achava as cores das chávenas muito bonitas. Há um tipo que é vermelho e verde, para representar Portugal. Há outro que é azul e branco, para representar o céu. Também há chávenas brancas, mas essas não são muito procuradas, logo não são muito produzidas. Porém, sentia falta de discutir esses padrões com os seus amigos. Não, não eram todos colegas, ele tinha feito realmente amigos. E não podia falar, rir ou chorar com máquinas.
E a cadeira não parava de ranger. Não parava mesmo. Ao mínimo movimento, à mínima interferência, ela rangia. Não, não pode ser assim. Ranger assim tanto incomoda. Ele nem se estava a mexer. Mas antes de lidar com esta cadeira, porque o homem que fabricava chávenas não quer falar dela, ele virou-se para elas e falou-lhes do padrão de cores que ele mais gostava. Como é óbvio, é o padrão com as cores de Portugal que mais o satisfaz, por ser um belo país.
E, ai meu Deus! Uma chávena defeituosa! Mas já foi tarde, a chávena fugiu-lhe e entrou noutra máquina para outro processo infinito. Sentiu-se angustiado, e quedou-se a observar inconscientemente as máquinas. Tinha cometido um erro, e ele provavelmente pagaria por isso, pois já não era o primeiro, mas sim o terceiro e último erro. Em breve, o lugar dele seria ocupado por um cubo moderno e escuro, que não precisa de ser incomodado por rangidos e que não precisa de tempo para pensar.






1 comentário
Fantástico…