As portas dos quartéis de São João D’ Arga

  

Barros Lopes

Primeiro vou contar uma história acerca de uma velha capela medieval, quem sabe cabeça de um cemitério situado num pequeníssimo povoado remanescente da civilização castreja, algures perdido nos montes do Alto Minho. Com o passar dos anos (centenas?) um dos poucos habitantes, tornou-se num dos maiores lavradores da Aldeia.

Chamavam-lhe o Rei lá do sítio!

O arcaboiço era tal que, face à humildade da velha capela em relação ao ouro que reluzia na corrente do relógio pendente do bolso do colete do nosso herói, este decidiu custear a construção de uma nova capela num local mais airoso  e sobranceiro.  Mas o novo-riquismo nem é de agora, nem tão cosmopolita como se imagina. Capela Nova, logo ‘Santo Novo’! E lá está o Santo mais recente na sua imagem do século dezanove. O original, o lavrador tê-lo-á guardado em casa.

GOSTA DESTE CONTEÚDO?

Passam os anos e os herdeiros da casa vendem-na. Os novos donos, nas arrumações fazem uma descoberta: encontram o santo velho! Figura para a qual o barroco deve ser demasiado recente. É evidente que este Santo vale uma fortuna em relação ao actual.

 

 Isto vem a propósito das obras levadas recentemente a cabo nos quartéis de São

 João d’Arga. Havendo dinheiro, tudo se faz. O que faz falta e o que não faz!…

Telhados novos, sobrado novo. Chão térreo, pavimenta-se. Não tem luz eléctrica, dá-se à luz; não tem água quente, aquece-se. Escapou o Adro que continua em terra batida. Pedras dos quartéis lavadas e gateadas, portas novas! Claro! A saloiice do novo-riquismo teria que se manifestar fosse como fosse.

Portas novas, mesmo aquelas onde estavam  pintadas os preços do aluguer para passar a noite de 28 par 29 de Agosto que iam aumentando com o passar do tempo. Até aquela que o Professor Hermano Saraiva mostrou no seu programa fazendo uma referência genial á inflação.

Ver

 

http://www.rtp.pt/arquivo/index.php?article=2734&tm=57&visual=4

 
 

  


 
( Ressalvo aqui a peregrina ideia de Hermano Saraiva ter contado a lenda de Santo Aginha no adro de São João como sendo o local dos acontecimentos que levaram à sua morte. Nem na lenda isso sucede. Perguntem aos das Argas!)

É evidente que quem guardou as portas ou seus descendentes, guardará uma relíquia sem preço. Possívelmente será reconhecida daqui por cem anos, mesmo quando as novas portas forem substituídas por um qualquer outro novo-riquismo ou quando os centenários sobreiros secarem, forem substituídos por eucaliptos.

 Enfim é o «desemborbimento» como diria o meu amigo Morada. Ou coisas do 25 de Abril como diz o meu amigo Castro!…

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