Abastecimentos difíceis às tropas em terra

Estamos de novo com o Carlos Alves, que nos conta como eram os abastecimentos às tropas que em terra iam ficando sem mantimentos e muitas vezes sem munições e tinham na Força Aérea o “anjo da guarda” que tendo consciência da situação dos seus camaradas, tudo fazia para estar presente na hora certa.

Na segunda metade da nossa comissão e já conhecedor de quase toda a ZOT – Zona Operacional de Tete, éramos uma ajuda preciosa, para os pilotos mais novos naquelas andanças. Era muito importante o diálogo terra/ar, entre o operador em terra e o piloto do héli, para que a operação fosse bem sucedida. Mas havia muitas dificuldades na comunicação: a qualidade de som que entrava pelos ouvidos era péssi- ma, dificultando a mensagem do emissor; depois havia outra contrariedade a ultrapassar, talvez mais importante que a primeira. O operador do rádio “banana” em terra (aparelho de rádio utilizado pelo Exército para transmitir) não conseguia na maior parte das vezes levar-nos à sua localização.

 

Por vezes, o contacto com as tropas em terra não era fácil…

 

Havia determinadas referências pré-estabelecidas que deveriam ser seguidas, mas nem sempre isso funcionava.

O exemplo mais comum era ouvirmos de baixo, a indicação de “vire à sua direita, que nós estamos aqui junto a estas árvores grandes” quando deveria ser por exemplo, “vire à sua direita, siga em frente, está agora à nossa vertical”. Quando a localização estava acertada, descíamos vertiginosamente em espiral, com a consequente revira- volta de estômago e cabeça, mesmo para os mais experimentados e fazíamos a entrega.

Aterrar em segurança muitas vezes era difícil

 

Num desses reabastecimentos, nas montanhas a norte de Cabora Bassa, não havia sítio onde aterrar. Na primeira tentativa, ainda conseguimos cumprir a missão com êxito, graças à perícia do piloto. A entrega foi feita com a roda do aparelho apoiada no topo de um rochedo enquanto a carga era cuidadosamente despejada.

Na segunda tentativa, para outro grupo colocado mais à frente, os penhascos eram altos e agressivos. Aterrar era impensável. Fizemos voo estacionário a uma altitude de segurança e fizemos os possíveis por fazer a entrega em boas condições.

Com as rações de combate não houve grandes problemas, pois aguentaram perfeitamente o embate no solo; agora com os sacos plásticos, de cerca de 50 litros de água, foi doloroso ver a maior parte deles desfazerem-se em baixo, com o pessoal exausto a necessitar urgentemente de se dessedentar.

Mas não havia outra forma…

geral@minhodigital.pt
  Partilhar este artigo
Opinião  
  Partilhar este artigo