Editorial

Gosto de me ler na poesia dos poetas 

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

damiao.velho@sapo.pt

Toda a escrita é autobiográfica e a poesia não é exceção.

Quando um poeta, através de um poema seu, fala de algo ou de alguém também está a falar de si. Aplica-se a máxima de Freud que diz “quando Pedro me fala de Paulo fico a conhecer melhor Pedro que Paulo”.

Na música existem cantores para todos os gostos, na poesia também temos poetas para todos os gostos. Na música existe todo um mundo que vai desde a música popular até à música clássica. A popular não significa pouca cultura tal como a clássica nem sempre é erudição. São diferentes formas de expressão artística. Na poesia não é muito diferente.

O que torna a poesia boa, assim como a música, é a capacidade que o autor tem de expressar, com poucas palavras ou acordes, aquilo que realmente nos toca. Esse tocar na alma do ser humano, independentemente de quem é e em que parte do mundo habita, faz a diferença entre uns e outros poetas.

Há tempos fui visitar algumas aldeias e vilas de Portugal e em todas as pequenas terras por onde passei existe um poeta como referência dessa terra. Poetas de outros tempos, cuja grande inspiração era o local onde nasceram e viveram. Muitas alusões aos hábitos, às paisagens, rios e monumentos dessas aldeias ou vilas. Esses poetas só têm reconhecimento local porque com a sua poesia só tocaram ou tocam quem ali habitava ou habita. Não existe universalidade na sua arte.

É claro que isto é subjetivo uma vez que os gostos nestas matérias resultam das nossas próprias vivencias pessoais.

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Por exemplo, para mim, as dezenas de sinfonias de Händel são mais do mesmo, apesar de ser um compositor mundialmente apreciado. Já as poucas sinfonias de Chopin, Beethoven, Mozart ou Schubert são excecionais. São transversais aos tempos e à geografia e, por isso, incansáveis.

Na poesia poderia citar imensos poetas geniais: Pessoa, Espanca, O’Neill, Brecht, Vian, Torga ou Brel. Pelas mesmas razões: são transversais aos tempos e à geografia e, por isso, incansáveis.

Ouvindo o poeta e cantor Jacques Brel, quem é o velho deste mundo que não se revê em “Les Vieux” ou o apaixonado deste mundo que fica indiferente a “Quand on n’a que l’amour”?

Esses poetas que fui folheando enquanto turista caseiro, escreveram sempre sobre as mesmas coisas. Basta ler um ou dois poemas para saber como é toda a sua obra. Nota-se que viveram num mundo pequeno que acabava nas suas próprias muralhas físicas e mentais. Outros tempos…

Ultimamente, tenho lido poemas de jovens poetas, ainda desconhecidos, que apesar de terem nascido em terras pequenas, percebe-se, para bem da poesia que eu aprecio, que a sua terra é o mundo. E o mundo são as pessoas. As pessoas de todas as terras.

O génio Miguel Torga, apesar da sua ruralidade, conseguiu ir além, muito além, tal como estes jovens iniciantes e os grandes poetas de renome mundial. Tanto além que não é preciso ser transmontano para sentir a sua poesia.

E, tal como Torga, não é por acaso que os poetas que ficaram para a história e que fazem história não são aqueles que falam somente das coisas ou dos outros, mas são aqueles que quando estão a falar das coisas ou dos outros, sentimos que estão a falar de nós!

damiao.velho@sapo.pt

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