Editorial

Portugal está a deixar morrer à Fome – O abandono de um Português no Catar

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

Damião Cunha Velho

damiao.velho@sapo.pt

Chama-se César mas podia chamar-se Costa ou Marcelo. Infelizmente só se chama César.

César é um português que emigrou para o país mais rico do mundo à procura de uma vida melhor, que o seu amado Portugal não lhe deu.

Fê-lo, como tantos outros portugueses, e levou na bagagem a saudade e a ingenuidade de que a liberdade existe em todo o lado, como o ar que respiramos.

O problema de César foi ter ido para o Catar.

Um país que espelha modernidade mas onde se paga caro pensar diferente. E César pensou diferente. Para além de ser despedido da empresa onde trabalhava, a Catar Airlines, foi destratado pelas autoridades locais. Ficou sem documentos, sem dinheiro e sem a possibilidade de poder arranjar um novo emprego.

Ficou apenas com a roupa do corpo e “desenrasca-te César”.

O que César não esperava era ficar sem Pátria. Mas ficou. E ficou porque a embaixada portuguesa no Catar não quis saber de César, e tanto não quis que vive há quase oito meses à porta da embaixada. Vive num contentor, uma caixa com dois metros quadrados, à porta de uma casa de luxo, com piscina, com quartos desocupados e com a bandeira portuguesa orgulhosamente içada.

As embaixadas servem para representar ou defender os seus nacionais no estrangeiro e César não cometeu qualquer crime à luz da lei portuguesa.

Esta embaixada não serve para nada.

Não é uma embaixada, é uma fantochada.

César sobrevive da misericórdia de alguns que lhe levam comida. São cidadãos anónimos, alguns são funcionários não qualificados da embaixada.

Mas o que está a matar César não é a parca comida que lhe vão dando, mas o desprezo da Pátria, da sua Pátria.

Uma Pátria que se verga perante um país que não respeita os direitos humanos.

Uma Pátria que tem diplomatas marionetas a fazerem uma vénia a ditadores absolutistas, que com o dinheiro do petróleo compram tudo, desde o Campeonato do Mundo de Futebol, a realizar-se no Catar em Novembro, até à dignidade humana.

Uma Pátria que paga a essas marionetas para viverem principescamente. O “embaixador” (ponho aspas intencionalmente) vive num bairro de luxo na capital.

Mesmo assim, César ainda não desistiu de ser português. Apesar do seu sangue serem lágrimas de Portugal e, quem sabe, estar disposto a erguer a bandeira das Quinas quando a nossa Seleção de Futebol marcar um golo no Catar.

A verdade é que ninguém intervém e podemos um dia destes receber a notícia da morte de César.

Os “Costas” e “Marcelos” desta vida não querem saber.

No Catar não se fazem autópsias, a causa da morte é escolhida de acordo com as conveniências.

Este é o desfecho provável, porque César teve o azar de se chamar César e não Marcelo ou Costa.

A causa da morte não é difícil de adivinhar:

“Abandono pelo Estado Português”.

damiao.velho@sapo.pt

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